Dinheiro de Verdade

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Quando eu era criança minha família se aventurou em uma excursão para Foz do Iguaçu (PR), uma cidade superinteressante por sinal que merece uma visita. Depois de conhecer os pontos turísticos, fomos para o tradicional dia de compras no Paraguai. Para quem ainda não teve esta experiência, o Paraguai é como um Saara (Rio de Janeiro) multiplicado por uma 25 de Março (São Paulo) elevado a dez. Lá vende de tudo e os preços são infinitamente menores que os nossos. Na ocasião meu pai me deu US$ 50 em notas, que na época era cotado a R$ 0,80 (é… faz tempo), para eu gastar com o que quisesse. Senti-me muito feliz por ter dinheiro de verdade e poder de compra, comecei a escolher o que eu compraria, e só elegia o que custava poucos dólares, as coisas mais caras que me chamavam atenção rapidamente deixavam de ser meu objeto de desejo porque isso significava que as minhas notas iriam embora. No final ainda levei US$ 15 para casa e perguntava ao meu pai todo dia qual era a cotação do dólar, porque eu estava esperando valer mais para trocar por reais com o meu pai mesmo. Essa foi minha primeira experiência no mercado de capitais.
Trouxe esta história para mostrar como o dinheiro ‘vivo’ nos chama a uma organização melhor das finanças. Trocar as minhas notas por algo que eu desejasse extinguiria meu poder de compra e eu preferia desistir do que estava desejando. Na era onde o dinheiro virtual é cada vez mais comum, as compras não programadas, ou por impulso é cada vez mais frequentes. Hoje, basta uma sequência de números, gerados pelos cartões virtuais do App do seu banco, para um pacote chegar à sua casa.
O dinheiro da conta acaba e você pode continuar gastando o limite do cheque especial ou o cartão de crédito, sem perceber a quantidade de coisas que achou que era necessário, mas, na verdade, só fez crescer sua dívida. Segundo uma pesquisa do Serviço de Proteção de Crédito (SPC), um terço dos consumidores não sabe quanto virá à fatura do cartão de crédito. Dinheiro em espécie está escasso, e não é atoa que ele tem mais valor no mercado. Quem paga em dinheiro normalmente tem desconto, mesmo assim é super comum sair de casa sem um real na carteira.
É inegável que as transações eletrônicas trouxeram muitos avanços para o Sistema Financeiro Nacional, com o combate de lavagem de dinheiro, além das inúmeras facilidades no dia a dia de todas as pessoas, mas quando a tecnologia não ajuda, não é antiquado optar por meios tradicionais de fazer gestão das suas reservas. Os cidadãos suíços usam dinheiro em espécie em 70% das suas transações, inclusive em compras grandes como a de um carro. O psicólogo Miguel Brendl, professor de marketing da Universidade da Basileia, reforça a ideia de que essa identidade dos suíços oferece maior controle sobre os gastos.
Enquanto elaborava o assunto desta coluna, em uma conversa descontraída com duas amigas, contei sobre uma viagem que fiz, onde o caixa eletrônico “engoliu” meu único cartão de crédito e débito, e nem por isso deixou de ser maravilhosa. Eu gastei exatamente o que me programei, até porque era impossível gastar mais, voltei feliz e sem dívidas. Elas começaram a contar histórias parecidas com as minhas mostrando que o limite que as faltas das notas nos impõem, na verdade nos ajudam.
Se estiver faltando controle, experimente usar o tal do ‘dinheiro de verdade’, o incômodo de ver a sua carteira ficando vazia e seu poder de compra se extinguindo, vai acabar com o consumista descontrolado que existe dentro de você.

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