Bullying, indisciplina e solidão dentro das escolas do Brasil estão acima da média internacional

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BARRA MANSA/BRASÍLIA

Neste mês de dezembro foi divulgado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês). Eles apontam que os casos de bullying, indisciplina e solidão dentro das escolas do Brasil ocorrem em percentuais acima da média internacional.

Os resultados do Pisa 2018 apontam que 68% dos estudantes do Brasil não sabem o básico de matemática; 50,1% apresentam baixo desempenho em leitura e 55,3%, baixo desempenho em ciência. Os dados apontam que a saúde emocional está ligada ao conhecimento escolar. Vinte e nove por cento dos alunos que participaram da avaliação apontam que há ofensas nas escolas, enquanto a média da OCDE é de 23%. Outros 41% dizem que perdem tempo de aula por causa da indisciplina. E 23% concordam que se sentem sozinhos na escola; a média é 16%. Treze por cento falam que se sentem sempre tristes na escola.

O Pisa é uma avaliação feita mundialmente com provas de leitura, matemática e ciência. Além de estudantes, professores, diretores de escolas e pais respondem aos questionamentos. A mais recente edição, de 2018, foi aplicada a 10.691 alunos de 638 escolas do Brasil. A OCDE diz que não basta os alunos atingirem altos níveis de proficiência nas áreas de conhecimento, mas também é importante que se sintam felizes e integrados.

O resultado é divulgado a cada três anos – a edição mais recente foi aplicada em 2018 com uma amostra de 600 mil estudantes de 15 anos de 80 países diferentes. Juntos, eles representam cerca de 32 milhões de pessoas nessa idade. O Brasil participou de todas as edições do Pisa desde sua criação, em 2000, mas continua muito abaixo da pontuação de países desenvolvidos e da média de países da OCDE, considerada uma referência na qualidade de educação.

COMO FAZER NAS ESCOLAS?

No Colégio Estadual Baldomero Barbará alguns projetos preventivos são realizados – Fotos: Divulgação


E possível melhorar o clima disciplinar, por exemplo, com uma relação mais positiva entre alunos e professores. E no Colégio Estadual Baldomero Barbará alguns projetos preventivos são realizados e resultados já começaram a aparecer. Segundo a orientadora educacional, Joana D’arc de Oliveira Alencar, a escola não pode atuar no problema com ele acontecendo. Daí a importância de promover sempre, em todas as áreas, um trabalho preventivo. “É claro que mesmo trabalhando preventivamente, o bullying, por exemplo, acontece. Aí trabalhamos diretamente com esse aluno. Dentro do nosso regimento escolar já existe como ação indisciplinar o bullying. Existem consequências, como um termo de compromisso, suspensão, família é chamada para colaborar”, citou.

O trabalho preventivo é basicamente feito com a realização de projetos e palestras. Nesse ano, por exemplo, foi o primeiro ano do Projeto Bem Querer, que já rendeu frutos e será novamente realizado em 2020. “A intenção é despertar para o bem querer. Tudo aquilo que nos faz bem. Não falamos de violência, de morte, falamos de vida. A ação gerou uma reflexão muito grande. Até mesmo daqueles que nos desafiavam”, contou Joana.

A orientadora educacional citou ainda outra ação realizada durante o mês de prevenção ao suicídio, o Setembro Amarelo. Segundo ela, foram trabalhos realizados que enalteceram o respeito, amor, a vida. Os alunos enfeitaram as escolas com frases positivas, andaram com placas pedindo abraços, sorrisos. “Tivemos alguns que criaram coragem e nos procuraram para falar que pensavam em se matar. Conseguimos resgatar alguns alunos, encaminhamos outros para psicólogo. Estou há dez anos no Barbará e tenho sentido um crescimento muito grande nessa conscientização dos alunos”, afirmou, lembrando ainda que implantaram outro projeto chamado Anjo da Guarda, onde um aluno acolhe um novato, para prestar uma assistência nessa nova fase da vida, onde ele pode ficar perdido no ambiente escolar.

Para Joana D’arc, o que muda esse comportamento da comunidade escolar é o olhar sensível do diretor, professor, da coordenação. E a família, segundo ela, tem participado muito. Para ela, basta dar abertura para que a família se interesse em participar das ações da escola.            

AUTOMUTILAÇÃO E INDISCIPLINA

Goretti Gomes Carneiro é coordenadora do Programa de Apoio Multidisciplinar e Educacional – Foto: Divulgação


Em Barra Mansa existe o Programa de Apoio Multidisciplinar e Educacional (Pame), que trabalha com as cerca de 70 escolas municipais existentes. Duas psicólogas e duas fonoaudiólogas ajudam as unidades a trabalhar temas de comportamento que podem afetar o conhecimento dos alunos. Segundo a coordenadora, a psicóloga Goretti Gomes Carneiro, o programa funciona há dez anos na Secretaria de Educação e já é possível colher bons resultados.

Ela contou que o trabalho é realizado ao longo do ano, de forma preventiva, através de palestras conforme a demanda. Temas como bullying, indisciplina e solidão são trabalhados, assim como outros. Porém, há cinco anos o bullying não é mais o primeiro da lista dos assuntos mais tratados. “Todo o mês temos reuniões com as orientadoras educacionais que são responsáveis por desenvolver os temas nas escolas. Percebemos que há cinco anos o tema bullying era campeão de notificações e por termos trabalhamos muito, atualmente não tem mais tanta demanda. As primeiras têm sido automutilação e indisciplina, seguido de agressividade”, contou.

De acordo com Goretti, a automutilação tem sido um problema muito grave. E não apenas por conta de jogos como Baleia Azul – que matou um estudante no ano passado em Barra Mansa, mas por estar ligada as redes sociais. E os alunos do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental são as maiores vítimas. “O estudante entra em depressão porque fica o tempo todo ligado no celular. Começa nas redes e vê uma vida que nunca vai ter, mentirosa. Não tem apoio da família”, afirmou a psicóloga.

A solução para esses problemas são, de acordo com Goretti, a médio e longo prazo, principalmente com a participação da família, que está deixando a obrigação em educar para as escolas.

NÃO APENAS O PROBLEMA EMOCIONAL

As duas profissionais concordam que o baixo rendimento dos alunos nas escolas não está aliado apenas a questões emocionais e comportamentais. Segundo a orientadora educacional, Joana D’arc de Oliveira Alencar, é preciso voltar a fazer o arroz com feijão bem feito. “Ler e escrever, fazer as quatro operações, interpretar texto. O que temos atualmente é uma política educacional muito frágil e fraca, onde o construtivismo deu lugar a base. A criança pode ter autonomia, mas precisa de direção da escola. Ela não pode ser deixada sozinha, a escola tem que ser a margem desse riozinho que vai. A educação do Brasil precisa voltar a se preocupar com o letramento”, opinou.

Outros problemas também são mencionados pela coordenadora do Pame, Goretti Gomes Carneiro. A situação das escolas, sua estrutura física. “Não é interessante uma aula nos moldes do passado. Precisamos usar a tecnologia a nosso favor, fazer com que fique atrativo. Esse é um caminho até já usado na Secretaria de Educação de Barra Mansa. Não apenas o emocional interfere nos dados de conhecimento. É uma parcela pequena, temos uma estrutura falida no país e é preciso dar uma repaginada nisso tudo”, enumerou a psicóloga.

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