Atletas refugiados vivem momentos marcantes na Olimpíada de Tóquio 2020

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NOVA IORQUE/TÓQUIO

A participação de membros da Equipe Olímpica de Refugiados no último fim de semana foi marcante durante os Jogos Tóquio 2020. Formada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), com apoio da Agência da ONU para Refugiados (Acnur), os resultados obtidos pelos atletas ao lado dos grandes nomes do esporte da atualidade reforçam a determinação das pessoas refugiadas em atingir seus objetivos mediante uma oportunidade que lhes é dada.

Um dos destaques das provas de atletismo foi o congolês Dorian Keletela que correu os 100 metros rasos, a prova mais rápida do atletismo. Ele teve uma performance extraordinária na fase classificatória no dia 30 de junho quando fez o trajeto em 10s33. No dia seguinte, no entanto, não conseguiu avançar para a etapa seguinte por não ter cruzado a linha entre os três primeiros.

Nas redes sociais, Dorian escreveu que Tóquio 2020 foi uma experiência incrível, agradeceu o apoio que lhe foi dado e já mencionou seu desejo em estar em Paris, competindo pelo time de refugiados nos próximos Jogos Olímpicos, em 2024.

O sul-sudanês James Nyang Chiengjiek, que competiu na última sexta-feira, dia 30 de julho, nos 800 metros, também não conseguiu classificação para as fases seguintes. O atleta sul-sudanês protagonizou uma das cenas mais comoventes dos últimos dias em Tóquio. James estava entre os líderes da prova e foi tocado por outro atleta, caindo logo na primeira curva da pista. Após completar a prova em último lugar, James se agachou na pista e chorou substancialmente. Ao jornal Folha de São Paulo, que o entrevistou após a prova, o jovem de 23 anos afirmou ter treinado muito para chegar em Tóquio. “Eu estava pronto. Muita gente [refugiados]contava comigo. Queria fazer algo importante para chamar a atenção para a situação de milhões de pessoas”, disse o atleta que, na infância, teve que deixar o país para não se tornar soldado criança na guerra civil.

A pista do Estádio Olímpico de Tóquio contou com a participação das sul-sudanesas , que participam pela segunda vez dos Jogos Olímpicos. Elas competiram nas provas de 800 e 1.500 metros respectivamente e Anjelina marcou seu melhor tempo da vida, provando sua contínua evolução desde os Jogos Rio 2016.

Última semana de Jogos

Os Jogos Olímpicos Tóquio 2020 entram em sua última semana e muitas modalidades se encaminham para a reta final. Nos próximos dias, quatro atletas da Equipe Olímpica de Refugiados ainda farão suas estreias em Toquio. Aker Al Obaidi, nesta segunda-feira, dia 2, às 23 horas; Hamoon Derafshipour, na quinta-feira , dia 5, às 22 horas; Wael Shueb, sexta-feira, dia 6, às 22 horas; e Tachlowini Gabriyesos, sábado, dia 7, às 19 horas competirão em luta livre, karatê, e maratona.

Um dos mais jovens atletas da Equipe Olímpica de Refugiados é o iraquiano Aker Al Obaidi. Aos 20 anos, ele compete pela modalidade greco-romana em luta livre e espera conseguir uma medalha em Tóquio. Mas antes de se mudar para a Áustria e conseguir restabelecer sua vida, Aker enfrentou diversos obstáculos.

Aos 14 anos, foi obrigado a deixar o Iraque para fugir do Estado Islâmico, que estava recrutando garotos da idade dele. No caminho para o Curdistão, o atleta acabou separando-se da família e chegou à Áustria, onde teve sua solicitação de refúgio aprovada.

Aker se estabeleceu na região de Tirol, onde foi notado por um clube local e recebeu a oportunidade de treinar, estudar e aperfeiçoar um idioma totalmente novo. Agora mais próximo do sonho olímpico, o lutador espera levar voz a todas as pessoas refugiadas no mundo. “Estou tentando nos dar voz, para mostrar que refugiados não são pessoas más. Não devemos ser considerados bandidos e sermos associados a coisas negativas. Queremos mostrar que estrangeiros podem fazer coisas boas, ser bons nos esportes, ganhar medalhas”, disse em uma entrevista ao Comitê Olímpico Internacional (COI).

Outra estreia desta semana é Wael Shueb de Damasco, na Síria, onde ele trabalhava em uma fábrica de tecidos e como treinador de karatê. Em 2015, devido a conflitos religiosos em sua cidade e por ter sido convocado pelo exército para o combate, ele teve que fugir para a Europa. Ele chegou à Turquia em um bote de borracha e depois foi para a Grécia. Pela estrada dos Bálcãs, ele chegou de bicicleta até a fronteira sérvia com a Macedônia. Ainda enfrentou outra longa jornada até a Alemanha, onde pôde se estabelecer, reconstruir sua vida e continuar treinando.

A última participação da Equipe Olímpica de Refugiados é do maratonista Tachlowini Gabriyesos, que compete neste sábado (7), no dia do encerramento dos Jogos em Tóquio. Ele fugiu da insegurança na Eritreia quando tinha apenas 12 anos. Passou um tempo na Etiópia e no Sudão, antes de finalmente fazer a jornada pelo Sinai até chegar em Israel. Ao chegar ao novo país, passou um tempo detido antes de ser mandado para uma escola em Hadera, onde conheceu seu treinador de corrida e se encantou pela modalidade da qual se dedica com afinco. Este ano, após ter sido um dos porta-bandeiras da Equipe Olímpica de Refugiados, ao lado da nadadora síria Yusra Mardini, Tachlowini espera conquistar a tão sonhada medalha olímpica.

* Luciano R. Pançardes – Editor Chefe

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