ANGRA DOS REIS
O mês de agosto marca uma etapa muito importante para as escolas de samba do Rio do Janeiro, mas pouco conhecida entre a maioria das pessoas: a escolha dos sambas-enredo. Dentre as parcerias concorrentes, várias delas contam com integrantes que moram fora da capital fluminense.
José Carlos Oliveira, radicado em Angra dos Reis, é um desses compositores. O carioca, que escolheu o município da Costa Verde para viver e trabalhar quando ainda tinha 18 anos, volta a participar das disputas ao lado de Ian e Caio Ruas, filhos de um antigo parceiro, para as escolhas dos sambas para o ano de 2027.
Zé Carlos do Cartório, como é conhecido pelos sambistas, conta que sua aproximação com o universo das escolas de samba aconteceu em 1998, quando, ao lado do amigo José Carlos Miranda, já participava de festivais de música pelo país.
Segundo ele, tudo teve início a partir de um convite para integrar uma parceria da Portela. “Disse que só participaria se o Miranda estivesse junto. A condição foi aceita e ajudamos na criação do samba da Portela. Saímos vencedores da disputa e depois fomos campeões também no Carnaval seguinte. Assim começou nossa história no mundo do samba”, relembra Zé Carlos.
A aposta deu resultado, o grupo venceu as disputas da Portela em dois anos consecutivos e teve seus sambas cantados na Marquês de Sapucaí nos carnavais de 2019 e 2020, com os enredos “Clara Nunes e o Modernismo” e “Guajupiá, Terra sem Males”. A parceria reuniu ainda Valtinho Botafogo, Beto Aquino, Pecê Ribeiro, D’Sousa e Araguaci.
Segundo o compositor, não há uma receita pronta para a composição do samba-enredo campeão. Ele explica que o processo reúne músicos e letristas, que discutem cada detalhe da obra até chegar ao resultado final. “Grande parte da obra vem de discussões coletivas, sendo quase uma colcha de retalhos”.
Na avaliação de Zé Carlos, um samba vencedor precisa reunir diversos elementos. Entre esses fatores, ele cita a melodia, a letra, a fidelidade ao enredo, a duração do samba e os refrões, fundamentais para manter a escola empolgada durante o desfile. “Tudo tem importância. É sempre o coletivo dos detalhes que importa”, acrescenta.
Para o compositor, que está a quilômetros de distância do Rio, as reuniões atualmente são possíveis graças à tecnologia, permitindo encontros virtuais entre integrantes da parceria e facilitando a criação do samba-enredo.
Além do trabalho artístico, participar das disputas também exige investimento financeiro das parcerias. Em muitos casos, são os próprios compositores que custeiam gravações, divulgação e apresentações.
Ele também explica que algumas escolas têm adotado regulamentos mais rígidos, limitando gastos com torcidas organizadas, videoclipes e outras estratégias de divulgação para tornar a competição mais equilibrada. “Isso democratiza mais a disputa, trazendo para dentro o compositor que possui talento, mas não dispõe de recursos financeiros”.
Com a morte do parceiro Miranda, o legado entre eles continua. Hoje, Zé Carlos compõe ao lado de Ian e Caio Ruas. Ele acredita que os filhos do parceiro ainda conquistarão títulos importantes no Carnaval carioca. “Ainda verei Ian e Caio campeões no Carnaval carioca, para o deleite espiritual de meu querido amigo”, diz.
Para o ano de 2027, Zé Carlos, Ian e Caio Ruas concorrem com sambas-enredo no Salgueiro e na Unidos da Tijuca. “Nossa parceria não se permite fazer uma obra sem cuidados musicais e com respeito à língua pátria. Isso reflete nosso respeito pela escola de samba”, conclui.
* Matéria atualizada às 10h52. Onde estava escrito que o compositor vive em Angra há 18 anos, na verdade ele mora na cidade desde os 18 anos.