“Estou entediado”. A frase, cada vez mais frequente em casas e escolas, costuma ser interpretada como queixa, birra ou falta de interesse. No entanto, sob a lente do desenvolvimento infantil, ela revela algo bem mais profundo: a dificuldade de lidar com o vazio, com a espera e com a ausência de estímulos imediatos.
O cérebro das crianças contemporâneas vem sendo treinado para a velocidade. Vídeos curtos, jogos interativos e conteúdos que se renovam a cada poucos segundos diminuem o espaço interno necessário para imaginar, criar e brincar de forma espontânea. Quando não há um estímulo externo pronto, surge o desconforto e esse desconforto recebe o nome de tédio.
É importante dizer: o problema não é o tédio. Pelo contrário. Ele é um estado fundamental para o desenvolvimento da criatividade, da autonomia e da autorregulação emocional. É justamente nos momentos de vazio que a criança aprende a inventar brincadeiras, tolerar frustrações, organizar pensamentos e explorar o próprio mundo interno.
Ao preencher cada pausa com telas ou atividades programadas, retiramos do cérebro infantil a oportunidade de amadurecer essas competências. Eliminamos o desconforto momentâneo, mas também suprimimos um terreno fértil para o crescimento emocional e cognitivo.
Talvez a pergunta provocada pelo “estou entediado” não seja “o que oferecer agora?”, e sim: “o que essa criança ainda não aprendeu a construir sozinha?”. Proteger a infância também significa permitir pausas, silêncios e tempos vazios porque é nesses intervalos que a imaginação encontra espaço para nascer.
Marcele Campos
Psicóloga Especialista em Neuropsicologia (Avaliação e Reabilitação) e Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo, Atrasos de Desenvolvimento Intelectual e Linguagem. Trabalha há mais de 28 anos com crianças e adolescentes. Proprietária da Clínica Neurodesenvolver.