Receber um diagnóstico de autismo ou TDAH na vida adulta é um misto de alívio e choque.
Para muitos, é como finalmente encontrar as peças que faltavam de um quebra-cabeça: compreender por que certas situações sempre pareceram tão difíceis, por que a sensação de não pertencer era constante, por que a exaustão de “tentar ser como os outros” pesava tanto. Mas junto com o alívio, chegam também as marcas de uma vida inteira de julgamentos, incompreensões e culpas sem nome.
Adultos que descobrem tarde esses transtornos frequentemente falam de um luto silencioso: o luto pelas oportunidades que poderiam ter existido, pelas relações que poderiam ter sido mais leves, pelos caminhos que poderiam ter sido diferentes, se a compreensão tivesse chegado antes.
É um processo de reconstrução de si, da autoestima, da identidade.
E é justamente aqui que precisamos estar atentos: pessoas autistas de nível 1 de suporte e adultos com TDAH têm maior risco de depressão, ansiedade e ideação suicida.
Não porque suas vidas não tenham valor, muito pelo contrário. Mas porque, durante anos, foram levados a acreditar que eram “difíceis demais”, “bagunçados demais”, “estranhos demais”.
O estigma e a falta de apoio corroem em silêncio
No Setembro Amarelo, mês de conscientização sobre a prevenção ao suicídio, e especialmente hoje, no Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio (10 de setembro), é urgente levantarmos a voz por essas pessoas.
Porque acolher diagnósticos tardios não é apenas dar nome a uma condição: é devolver dignidade, é oferecer ferramentas, é abrir caminhos de pertencimento e esperança.
O diagnóstico não deve ser visto como uma sentença, mas como um ponto de partida para uma vida mais autêntica.
Seja no trabalho, nos relacionamentos ou no autocuidado, compreender o próprio funcionamento é um ato de libertação.
E falar sobre isso, sem tabus, é também um ato de prevenção e de vida.
Neste Setembro Amarelo:
Estenda a mão.
Acolha sem julgamento.
Escute de verdade.
Porque cada vida importa.
E cada pessoa merece saber que não está sozinha.
Marcele Campos
Psicóloga Especialista em Neuropsicologia (Avaliação e Reabilitação) e Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo, Atrasos de Desenvolvimento Intelectual e Linguagem. Trabalha há mais de 28 anos com crianças e adolescentes. Proprietária da Clínica Neurodesenvolver.