BARRA DO PIRAÍ
Sob lágrimas e silêncio atento, a história de Andrea Costa, sobrevivente de uma tentativa de feminicídio há cerca de 30 anos, emocionou o auditório da OAB Barra Mansa na noite desta quarta-feira (25). A palestra “A Gente Precisa Falar sobre Feminicídio” transformou o debate jurídico em um ato de denúncia, resistência e mobilização coletiva.
Promovido pela subseção da OAB em Barra Mansa, por meio da Comissão de Jornalismo, o evento foi mediado pelo presidente da instituição, o advogado Aloizio Perez e reuniu autoridades do Judiciário, forças de segurança, representantes do Poder Público e entidades civis, membros da sociedade e das Comissões da OAB da região. Entre as palestrantes, a delegada titular da DEAM de Volta Redonda (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), drª Juliana Montes.
Prestes a completar 60 anos, Andrea relatou publicamente, pela primeira vez, as agressões que sofria do marido — violência que culminou em um disparo de arma de fogo enquanto dormia. A bala da Taurus calibre 38, acertou o ouvido esquerdo, atravessou sua cabeça e o olho direito. Na sequência, o agressor cometeu suicídio.
Natural de Volta Redonda, Andrea morava no Rio de Janeiro à época do crime, em fevereiro de 1989, e ficou cerca de um mês em coma. Passadas mais de três décadas, as sequelas físicas e emocionais permanecem. A filha do casal tinha apenas dois anos quando tudo aconteceu.
Andrea enfrentou ameaças da família do agressor. O atentado desfigurou seu rosto e comprometeu visão e audição. Desde então, ela passou por mais de 30 cirurgias. O medo persiste, mas a terapia a ajuda a lidar com as marcas emocionais. “Tive que me encher de coragem para seguir a vida. Essa coragem veio da necessidade de criar a minha filha. Hoje falo pela primeira vez em público sobre o que aconteceu comigo. Não é fácil, mas precisamos romper o silêncio diante do aumento de casos de feminicídio”, disse.
Duas cartas foram deixadas pelo agressor, uma para a filha e outra para a família, na tentativa de justificar o crime.
Andrea prepara o lançamento do audiobook “Levanta senão você vai morrer”, que será divulgado no canal escritoras e histórias no link https://youtu.be/o8nDGGk380M?si=2cPhVZ6wZyAPfRrh
A delegada Juliana Montes detalhou os atendimentos da DEAM, incluindo o público LGBTQI+, destacando a atuação de Paloma Salume, primeira mulher transsexual no Brasil a coordenar esse tipo de serviço. Juliana explicou os tipos de feminicídio previstos na lei: íntimo (por companheiro ou ex-companheiro), não íntimo (sem vínculo afetivo) e profissional (quando a mulher é vítima por ocupar posição de poder ou subordinando-se a regras do ambiente de trabalho).
Ela também comentou sobre a referência das mulheres pela aparência, a importância da presença feminina em espaços de poder e citou casos internacionais de abuso sexuais, como Jeffrey Epstein e o ex-príncipe Andrew Mountbatten Windsor.
Jane Portella, presidente da Comissão de Jornalismo, apresentou dados preocupantes: em 2025, o Brasil registrou 1.470 casos de feminicídio — quatro mortes por dia. No Sul Fluminense, 10 casos, e em Volta Redonda, duas tentativas nos primeiros dois meses de 2026. Segundo o CNJ, foram julgados 15.453 processos e abertos 11.883 novos casos no mesmo ano, com 621.202 medidas protetivas concedidas, cerca de 70 por hora.
“A violência doméstica atinge todas as classes sociais. Pesquisa da OAB-RJ mostra que 79% das advogadas já sofreram violência doméstica. Em 2025, o Google registrou 163 milhões de buscas sobre ‘como matar uma mulher sem deixar rastros’. Isso revela a profundidade do machismo estrutural e patriarcal”, alertou Jane.
Ao final do evento, autoridades reforçaram a necessidade de ação contínua. Alcilene Novaes, da Patrulha da Mulher, ressaltou a importância do trabalho preventivo. Tamires Ferreira, psicóloga do Centro Especializado de Atendimento à Mulher, destacou que o enfrentamento da violência envolve acolhimento emocional e redes de proteção, não apenas punição.
A juíza Anna Carolinne Licasalio lembrou que, apesar dos avanços do Judiciário, o maior desafio é cultural: “É preciso educar crianças e jovens em busca de uma sociedade igualitária, conscientizar e desconstruir padrões que naturalizam a violência”.
A vice-prefeita Luciana Alves reforçou a necessidade de políticas públicas integradas e articulação entre sociedade civil e instituições de proteção. “Debater fatores que perpetuam o feminicídio, como desigualdade de gênero, cultura do silêncio e normalização da violência familiar é fundamental transformar nossa cidade em um espaço mais seguro para as mulheres”, concluiu.