Turismo rural avança no Brasil e abre nova frente de empreendedorismo no interior

Mais do que atrair visitantes, setor transforma pequenas propriedades em negócios híbridos e amplia renda fora dos grandes centros

Por Roze Martins
unnamed

NACIONAL

O crescimento do turismo no Brasil começa a produzir um efeito menos visível, mas cada vez mais relevante para a economia do interior: a transformação de pequenas propriedades e negócios familiares em operações híbridas, que combinam produção local, hospitalidade e experiência.

Embora o avanço do setor costume ser medido pelo aumento do fluxo de visitantes e da receita turística, no campo o impacto aparece também de outra forma. O turismo rural tem ampliado oportunidades para que famílias, produtores e empreendedores locais criem novas fontes de renda a partir da estrutura que já possuem, sem depender exclusivamente da sazonalidade agrícola ou de grandes investimentos iniciais.

O cenário geral do turismo ajuda a explicar esse movimento. Em 2025, o Brasil fechou o ano com cerca de 1,9 milhão de admissões com carteira assinada no setor, saldo positivo de mais de 80 mil novos empregos formais e um estoque total de 2.391.889 trabalhadores, o equivalente a quase 5% dos empregos formais do país. No mesmo período, o turismo internacional gerou US$ 7,9 bilhões em receitas, recorde da série histórica, segundo dados divulgados pelo Ministério do Turismo com base no Novo Caged e no Banco Central.

Dentro desse ambiente de expansão, o turismo rural ganha força por reunir atributos que dialogam diretamente com o novo perfil de consumo. Pesquisa do Ministério do Turismo, da Sprint Dados e da Rede Turismo Rural Consciente mostra que 74% dos turistas que buscam esse segmento escolhem destinos pela proximidade com a natureza, 73% valorizam comida caseira, 70% levam em conta a paz e tranquilidade e 50% procuram experiências que gerem aprendizado.

O dado ajuda a entender por que o turismo rural deixou de ser visto apenas como hospedagem no campo ou passeio de fim de semana. O que cresce agora é a demanda por experiências ligadas à identidade local, rotina produtiva, gastronomia regional e contato direto com quem vive e trabalha no campo.

Para a especialista em turismo Santuza Macedo, esse movimento tem potencial para redesenhar a lógica do empreendedorismo em cidades menores.

“O turismo rural deixou de ser apenas uma extensão do lazer e passou a funcionar como uma estratégia de permanência econômica no interior. Quando a propriedade transforma sua história, sua produção e sua cultura em experiência, ela cria valor sem perder identidade”, afirma.

Na avaliação da especialista, o ponto mais relevante do setor hoje não está apenas no volume de turistas, mas na forma como a atividade permite diversificação de receita em regiões que tradicionalmente dependem de poucas frentes econômicas.

“Existe uma mudança importante acontecendo no interior. Pequenos empreendedores perceberam que não precisam deixar de produzir para receber turistas. Eles podem integrar café, queijo, colheita, hospedagem, gastronomia, vivência e comércio local em uma mesma jornada. Isso aumenta a renda e distribui melhor o impacto econômico”, diz.

Interior produtivo

O próprio avanço institucional do setor reforça essa tendência. Em iniciativas voltadas à estruturação do turismo rural, o Ministério do Turismo informa a criação de 131 experiências turísticas em todo o país, com a incorporação de mais de 90 famílias da agricultura familiar a cadeias produtivas como queijo, vinho, cachaça, café, mel, farinha de mandioca, cerveja e frutos da Amazônia, além do envolvimento de outros 120 empreendimentos turísticos, entre hospedagem, restaurantes, agências, receptivos e transporte.

Mais do que ampliar a oferta turística, esse tipo de arranjo mostra que o setor pode funcionar como organizador de uma economia local em rede. Em vez de concentrar ganhos apenas no atrativo principal, o turismo rural tende a irradiar renda para fornecedores, cozinhas locais, artesãos, condutores, meios de hospedagem e serviços de mobilidade.

Segundo Santuza Macedo, esse é justamente o ponto que diferencia o turismo rural mais competitivo no cenário atual.

“O destino rural mais forte não é necessariamente o que tem a paisagem mais bonita. É o que consegue organizar uma experiência coerente, com hospitalidade, narrativa, produto local e circulação econômica no entorno. O turista quer autenticidade, mas também quer estrutura e sentido naquela vivência”, explica.

Novo ângulo do setor

Ao contrário da visão mais tradicional, que trata o turismo rural como nicho complementar, o setor começa a se consolidar como ferramenta de empreendedorismo territorial. Isso significa usar o turismo não apenas para atrair visitantes, mas para manter pessoas no campo, estimular negócios de pequeno porte e criar valor em regiões fora dos grandes eixos urbanos.

A força desse modelo também aparece nos canais de descoberta. A pesquisa do Ministério do Turismo aponta que 52% dos empreendimentos de turismo rural são encontrados pelas redes sociais, o que mostra que visibilidade digital, posicionamento e narrativa de experiência passaram a ter peso direto na geração de demanda.

Para Santuza Macedo, essa combinação entre autenticidade local e presença digital ajuda a explicar por que o segmento tende a crescer de forma mais estruturada nos próximos anos.

“O turismo rural tem hoje uma vantagem competitiva importante: ele entrega exatamente o que parte do viajante procura, que é desaceleração, contato humano, origem e experiência real. Quando isso é bem apresentado e bem organizado, deixa de ser apenas passeio e passa a ser negócio.”

 

 

você pode gostar

Deixe um comentário

Endereço: Rua Michel Wardini, nº 100

Centro Barra Mansa / RJ. CEP: 27330-100

Telefone: (24) 9 9974-0101

Edição Digital

Mulher

Últimas notícias

Expediente         Política de privacidade        Pautas e Denúncias        Fale Conosco  

 

Jornal A Voz da Cidade. Todos direitos reservados.

Nós utilizamos cookies para garantir que você tenha a melhor experiência em nosso site. Ao continuar navegando, você concorda com o uso de cookies. Aceitar todos