Trago verdades e não empresto dinheiro

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No início da faculdade arranjei meu primeiro emprego, na verdade era um estágio, com uma incrível bolsa de meio salário mínimo. Foi o suficiente pra me sentir independente e começar a organizar um padrão de vida dentro do que eu recebia. Tudo certo, eu tinha dinheiro para as minhas necessidades e guardava o equivalente a um salário escondido no guarda-roupas pra alguma emergência, foi quando pela primeira vez aconteceu! Uma pessoa que trabalhava comigo me chamou no canto e me pediu um dinheiro emprestado com o argumento de que seus filhos não tinham o que comer, mas ela sempre saía do trabalho e parava pra beber uma cerveja com os outros funcionários, pensei que o dinheiro do bar poderia ser dedicado a alimentação, e eu teria que fazer uma escolha, se eu emprestasse dinheiro eu ficaria sem realizar o que eu tinha planejado ou sem minha reserva de emergência… Pensei bem, avaliei que ela poderia ficar sem a cerveja e respondi: Não posso te emprestar! Ela me devolveu a argumentação jurando que iria pagar e mais uma vez respondi: Não posso te emprestar! A resposta dela foi: Pensei que você era uma pessoa de coração bom.
Se você ainda não viveu, acredite, vai viver! Todo mundo um dia passa pela situação de ouvir alguém pedindo um dinheiro emprestado. As vezes é algum amigo, muitas outras é família e tem até gente sem muito contato que vai na cara de pau mesmo apelando por um lado mais sentimental. Em quase todas as vezes esses pedidos vêm acompanhados de um bom projeto, esse empréstimo pode estar sendo solicitado pra salvar um negócio, pra pagar os reparos de um acidente de carro, pra viabilizar a festa do sobrinho e não deixar a criança frustrada, ou muitos outros bons e relevantes motivos, mas hoje eu vou te mostrar porque você se ajuda e ajuda o próximo dizendo NÃO.
Quando você pede dinheiro emprestado ao banco, primeiro ele avalia se você realmente pode pagar, depois formaliza tudo em um contrato sujeito a multas, juros e correções, podendo, em caso de calote, restringir seu crédito em qualquer estabelecimento do mercado. Já quando o empréstimo é feito entre pessoas próximas, para combinar o que está sendo feito é sempre delicado, quem empresta fica constrangido de estabelecer regras, quem toma emprestado não espera um negócio, e sim uma ajuda. Coisas como prazo, carência e amortização passam longe da conversa e cada um interpreta da sua maneira, o que vai tornando o empréstimo tão flexível ao ponto de não ser pago. Uma relação que antes era de pessoas queridas entre si começa a ficar estremecida. Não é proibido ajudar, mas se quiser fazer isso, considere doar o dinheiro, sem esperar nada em troca. Se você estiver disposto a isso, ótimo! O que vier de volta é lucro.
Outra coisa que também deve ser considerada é porque a pessoa está recorrendo a você e não a um banco. Será que o nome já está sujo? Faltou organização como o dinheiro da cerveja? Se ela não cuidou de zelar pelo próprio nome, vai deixar de te dar um calote? Se todas as oportunidades de crédito dela se esgotaram é porque ela não pode pagar pela próxima, emprestar dinheiro não é ajudar, é aumentar o problema, ajudar é você compartilhar com essas pessoas suas técnicas pra manter as contas em dia.
Lembre-se sempre, emprestar dinheiro é igual emprestar o cartão, o cheque e o nome. Se hoje você tem uma reserva é porque um dia abriu mão de alguma coisa, é fruto do seu esforço e transferi-la pra alguém é fazer uma escolha entre seus objetivos e os da outra pessoa.

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