TDAH sem mitos e com informação que transforma vidas

Por Carol Macedo
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Em meio ao crescimento das discussões sobre saúde mental, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um dos temas que mais desperta dúvidas, mitos e até preconceitos. Muitos jovens e adultos chegam ao consultório carregando informações desencontradas, receios e interpretações distorcidas sobre diagnóstico e tratamento. Nesse cenário, a informação correta deixa de ser apenas um detalhe: torna-se uma ferramenta essencial para garantir cuidado responsável, seguro e eficaz.

O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, não uma “fase”, um “jeito de ser” ou falta de esforço. Ele envolve diferenças reais no funcionamento cerebral relacionadas à regulação da atenção, do controle inibitório e da impulsividade. Quando não tratado adequadamente, pode comprometer o rendimento escolar, gerar baixa autoestima, prejudicar relações sociais e aumentar o risco de ansiedade e depressão. Por isso, compreender o transtorno e suas possibilidades de intervenção é parte fundamental da responsabilidade de pais, educadores e profissionais.

Entre os tratamentos disponíveis, os medicamentos estimulantes como a metilfenidato, conhecida pelos nomes comerciais Ritalina e Concerta costumam gerar polêmica, embora sejam amplamente estudados e reconhecidos pela comunidade científica. Muitos desconhecem como esses medicamentos atuam. Em pessoas com TDAH, há uma menor disponibilidade de dopamina e noradrenalina em regiões cerebrais que regulam atenção, planejamento, motivação e controle da impulsividade. O metilfenidato age justamente aumentando a disponibilidade desses neurotransmissores nas sinapses, melhorando a comunicação neuronal e, consequentemente, a capacidade de foco, organização e autorregulação. Não se trata de “estimular” indiscriminadamente o cérebro, mas de equilibrar circuitos que já funcionam com menor eficiência.

O resultado, quando indicado por um profissional habilitado e usado de forma supervisionada, é um ganho significativo na qualidade de vida. Jovens que antes tinham extrema dificuldade de iniciar tarefas passam a conseguir se organizar. Crianças impulsivas tornam-se mais capazes de interromper uma ação antes de agir por impulso. Estudantes que não conseguiam manter a atenção em explicações ou leituras conseguem finalmente acompanhar o ritmo da escola. Esses avanços não mudam quem a pessoa é; apenas permitem que ela acesse habilidades que antes estavam travadas pela desregulação neuroquímica.

Mas é essencial dizer: medicação não é tratamento isolado. Ela abre portas, mas quem ajuda o jovem a atravessar essas portas é, principalmente, o acompanhamento psicológico clínico. A psicoterapia ensina estratégias de organização, manejo da ansiedade, habilidades socioemocionais, autocontrole e fortalecimento da autoestima. Ajuda a interpretar emoções, lidar com frustrações, desenvolver autonomia e transformar pequenas conquistas em novos padrões de comportamento. O medicamento ajusta o foco; a psicologia ensina o caminho.

Quando esse trabalho é integrado com psiquiatra ou neuropediatra ajustando a medicação e psicólogo ajudando na construção de novas habilidades, o tratamento se torna robusto e duradouro. A união entre neurociência e psicologia oferece ao jovem não apenas alívio dos sintomas, mas oportunidade real de desenvolvimento e bem-estar.

Em tempos de tanta circulação de informações equivocadas, o desafio é promover conhecimento que tranquilize e empodere famílias, evitando tanto o medo infundado da medicação quanto o uso inadequado. O caminho está no equilíbrio: diagnóstico sério, acompanhamento responsável e respeito à singularidade de cada pessoa.

No fim, o objetivo é sempre o mesmo: proporcionar aos jovens com TDAH a chance de viverem com mais liberdade, segurança emocional e possibilidades reais de aprendizado. Informação correta salva trajetórias e, nesse tema, ela é tão necessária quanto o próprio tratamento.

Marcele Campos
Psicóloga Especialista em Neuropsicologia (Avaliação e Reabilitação) e Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo, Atrasos de Desenvolvimento Intelectual e Linguagem. Trabalha há mais de 28 anos com crianças e adolescentes. Proprietária da Clínica Neurodesenvolver.

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