Pais adoram dar conselhos. Mas será que vivem o que pregam? É comum exigir dos filhos moderação, disciplina e empatia, enquanto dentro de casa o exemplo aponta para o contrário. Crianças não aprendem pelo sermão: aprendem pelo olhar. E esse olhar é implacável.
O peso do “ter” sobre o “ser”
O consumismo é um bom exemplo. Muitos pais se queixam de que os filhos só pensam em ganhar coisas novas. Mas de onde vem essa ideia?
Quando a criança percebe que a felicidade dos adultos depende de trocar de celular, do carro do ano ou da marca estampada na roupa, a mensagem é clara: ser vale menos que ter. Resultado? Uma geração viciada na novidade, incapaz de encontrar satisfação no que já possui.
Os vícios que parecem normais
E quanto aos vícios disfarçados de rotina? O celular como companhia constante, a taça de vinho para aliviar o dia, o cigarro como muleta para os nervos. Os filhos observam tudo. Se o adulto precisa de uma fuga para lidar com emoções, por que a criança agiria diferente?
A escola invisível do lar
É confortável acreditar que cada indivíduo seguirá seu próprio caminho. Mas ignorar a força do exemplo é ingenuidade. O lar é a primeira escola e nela não há quadro-negro, apenas atitudes.
Como você lida com frustrações? Como gasta seu dinheiro? Como usa seu tempo livre? É isso, e não suas palavras, que educa.
O desafio da coerência
Pais querem filhos equilibrados, éticos, responsáveis. Mas será que são eles mesmos o espelho desse ideal? A parentalidade exige menos discursos e mais coerência. Antes de apontar o dedo para os filhos, talvez seja hora de perguntar: que adulto eles estão imitando dentro de casa?
Marcele Campos
Psicóloga Especialista em Neuropsicologia (Avaliação e Reabilitação) e Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo, Atrasos de Desenvolvimento Intelectual e Linguagem. Trabalha há mais de 28 anos com crianças e adolescentes. Proprietária da Clínica Neurodesenvolver.