Vivemos tempos em que a infância foi promovida ao topo da hierarquia familiar, mas não da forma mais saudável. Muitas casas hoje parecem girar em torno da vontade irrestrita das crianças. Há mais medo de frustrar um filho do que de prepará-lo para o mundo. A autoridade parental foi, em muitos casos, trocada por uma amizade mal compreendida. E, no centro disso tudo, está a permissividade.
A permissividade não é afeto, nem liberdade. É ausência de limites, disfarçada de cuidado. É permitir que a criança dite as regras do cotidiano, que tenha tudo que quer, na hora que quer — mesmo sem estar preparada para lidar com isso. Pais permissivos confundem dizer “não” com rejeição. Mas é exatamente o oposto: o limite é uma forma profunda de amor, pois ensina que o outro também existe, que a vida impõe regras, e que há consequências em cada escolha.
Do ponto de vista psicológico, o impacto da permissividade é concreto. Crianças que crescem sem limites desenvolvem menor tolerância à frustração, dificuldade de adiar recompensas, e menor capacidade de autorregulação emocional. Não raro, essas habilidades ficam prejudicadas também na adolescência e vida adulta, manifestando-se como impulsividade, ansiedade, baixa empatia e até comportamentos de risco. Estamos formando adultos que têm dificuldade de ouvir “não”, de dividir, de esperar e de perceber o outro.
Nas entrelinhas dessa criação permissiva, molda-se uma sociedade mais imediatista, mais consumista e, paradoxalmente, menos satisfeita. Os filhos que hoje são poupados da frustração serão os adultos que não suportam ser contrariados. Os mesmos que abandonam empregos por não tolerarem hierarquias, rompem relacionamentos ao primeiro conflito e procuram anestesias rápidas — sejam elas digitais, alimentares ou químicas — para lidar com qualquer desconforto.
E o que isso tem a ver com empatia? Tudo. A empatia exige que a criança aprenda a perceber o outro, a esperar sua vez, a reconhecer que suas vontades não são prioridade absoluta. Mas se ela cresce sendo o centro do universo familiar, dificilmente enxergará o outro com compaixão. Se nunca ouviu um “não”, por que respeitaria o “não” do outro?
Educar exige coragem. Coragem para frustrar, para insistir no que é certo, mesmo que dê mais trabalho. Coragem para lembrar que o lar não é uma democracia onde todos mandam igualmente — é um espaço de segurança afetiva e estrutura, no qual os adultos precisam ser adultos.
A conscientização da criança sobre seus próprios comportamentos, emoções e responsabilidades é parte essencial da educação. Ela precisa entender que suas ações têm impacto — tanto para si quanto para os outros. E isso não se ensina com discursos prontos, mas com o exemplo cotidiano, com firmeza tranquila, com repetição e paciência.
O “não” que frustra hoje é o “sim” para a construção de um cidadão mais consciente amanhã. Amor demais não estraga ninguém — o que estraga é a ausência de estrutura. Educar é, sim, dizer “eu te amo” com abraços, mas também com regras, com consequências, com limites que ensinam a viver.
Em tempos de pressa e superficialidade, educar com intencionalidade, empatia e responsabilidade é um ato de resistência. Porque uma infância com limite, escuta e orientação forma adultos mais preparados para um mundo que precisa urgentemente de mais empatia.
Limites não traumatizam. Pelo contrário: constroem. E talvez seja esse o maior legado que um pai ou uma mãe pode deixar para um filho — não aquilo que ele quis, mas aquilo que ele precisava para crescer com empatia, maturidade e humanidade.
Vamos juntos!!
Marcele Campos
Psicóloga Especialista em Neuropsicologia (Avaliação e Reabilitação) e Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo, Atrasos de Desenvolvimento Intelectual e Linguagem. Trabalha há mais de 28 anos com crianças e adolescentes. Proprietária da Clínica Neurodesenvolver.