Ouvir sem julgar: apoio familiar é de suma importância para ajudar quem sofre de depressão

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BARRA MANSA

Ajudar uma pessoa que sofre de depressão e com pré-disposição ao suicídio pode ser um desafio para a família que sofre junto, muitas vezes sem saber como ajudar ou quais palavras usar. A próxima sexta-feira, dia 10, será marcada pelo Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio e esta data alerta para a importância de se falar sobre os riscos e cuidados para evitar ações suicidas. Para falar sobre isso, o A VOZ DA CIDADE conversou com o psicólogo barra-mansense, Pablo Emilio (CRP 08/33401), que destacou que ao lidar com alguém que tem esse transtorno, o ato de ouvir é essencial. Ainda segundo o especialista, o suporte psicológico para a família também é importante.

O presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antonio Geraldo da Silva, disse que, em geral, no mundo, o número de mortes por suicídio caiu mas, nas Américas, a taxa subiu 17%. Por isso, campanhas como o Setembro Amarelo são tão importantes. De acordo com a ABP, aproximadamente 98% dos casos de suicídio estão relacionados a transtornos mentais. Em primeiro lugar está a depressão, seguida do transtorno bipolar e abuso de substâncias.

Segundo Pablo Emilio, identificar que um familiar está entrando em um quadro depressivo é complicado quando não se tem um conhecimento mais aprofundado do assunto, contudo, é possível fazer algumas observações. De acordo com o especialista, existem momentos de luto e tristeza que não se enquadram em depressão. “Passar por momentos difíceis é natural, mas quando a tristeza e o luto predominam sobre a pessoa ao ponto de mudar sua maneira de agir, prejudicando seu cotidiano, aí sim está o problema”, disse, detalhando que é mais difícil quando a pessoa tenta esconder o que sente, se afastando. “Pode-se observar esses isolamentos também, a pessoa se afasta de amigos, não quer ir ao trabalho ou colégio, age de forma diferente e interage de forma triste”, ratificou.

O psicólogo falou também sobre as ameaças de suicídio e que é importante a família não falar coisas nesse momento que incite a pessoa, como, por exemplo, ‘você quer chamar atenção’ ou, ‘se tivesse que fazer já teria feito’. Além disso, Pablo destacou que algumas palavras que parecem ser de incentivo, podem fazer mais mal que bem. “Tem gente que diz para o outro pensar positivo, que é coisa da cabeça, que isso é ‘falta de Deus’, ou usa histórias de outras pessoas que superaram a depressão de forma comparativa. A intenção pode ser de ajudar, mas isso pode levar a pessoa a ficar pior. O mais importante de tudo é ter empatia, não só pelo parente, mas pelo próximo”, alertou, afirmando que o ideal é se dispor a ouvir o que a pessoa tem a dizer. Pablo Emilio ressaltou ainda a importância dessas pessoas, que convivem com quem tem esse transtorno, buscar uma ajuda psicológica. “Isso faz muita diferença. Não só a família vai saber lidar melhor com quem está sofrendo com um pensamento suicida, mas também vai ter acompanhamento com os próprios sentimentos”, disse.

A dor de quem viveu e perdeu

A Mrs. Elegance Barra Mansa, Elaine Lamblet, que perdeu a sua mãe para o suicídio, Maria José, conta que mesmo após dois anos, a dor da forma como essa perda ocorreu, ainda a acompanha.  “Além da depressão, minha mãe tinha esquizofrenia. Muitas vezes ela tinha uma tristeza gigantesca e nem sabia qual era a razão. Para quem não sofre disso, é difícil entender. Mas é necessário amor e compreensão de que esta pessoa não está bem e que não é ‘um drama’”, disse, completando que cuidou da mãe por mais 20 anos, logo após ela ser diagnosticada com depressão. “Eu sinto uma saudade que não passa. A minha mãe escolheu não estar mais aqui e essa perda é gigante. O tempo passa, a gente vai se acostumando e vai encontrando meios de estar bem, mas é muito difícil”, disse.

Ao ajudar uma colega de faculdade que sofria de depressão, aos 18 anos, outra personagem do A VOZ DA CIDADE, que preferiu não se identificar, disse que não teve maturidade para lidar com as questões da companheira de quarto e acabou tentando se matar. Passados 40 anos, ela lembra que o apoio da família foi muito importante para não tentar tirar a vida pela segunda vez.  “Minha mãe esteve ao meu lado. Lembro de dizer que não tinha razão alguma para viver, e ela me ouviu. Eu fazia faculdade, não tinha problema algum, namorado, mas por ajudar a colega de quarto na faculdade a sair da depressão, ao assumir isso, minha cabeça não aguentou e não tive maturidade para lidar. Tive apoio familiar depois e as coisas foram entrando nos eixos”, contou.

Centro de Valorização da Vida

Pablo Emilio lembrou ainda que o mesmo que não haja um acompanhamento psicológico, ainda existe a ajuda do CVV que pode dar o suporte tanto para a família quanto para a pessoa que sofre com o transtorno. O Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza apoio emocional e prevenção ao suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail e chat 24 horas, todos os dias. Os canais de contato podem ser acessados através do site do CVV e pelo número 188.

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