O que o Censo 2022 nos revela sobre o autismo no Brasil?

Por trás dos números do autismo, uma sobrecarga invisível precisa ser vista e acolhida

Por Carol Macedo
marcele campos

O Censo 2022 trouxe um dado inédito e fundamental: pela primeira vez, o Brasil passou a contar com informações oficiais sobre a população autista. Segundo os dados, 2,4 milhões de pessoas declararam ter diagnóstico de autismo no país.

A maior parte dos diagnósticos está entre os homens (1,5% da população masculina) em comparação com as mulheres (0,9%). A faixa. etária com maior proporção de diagnósticos é a de 5 a 9 anos, com 2,6% das crianças identificadas com TEA. Regionalmente, os números são relativamente estáveis, variando de 1,1% no Centro-Oeste a 1,2% nas demais regiões, com concentração maior no Sudeste.

Por mais que esse levantamento seja um marco, especialistas alertam: os números ainda estão subestimados. Muitos adultos permanecem sem diagnóstico, seja pela falta de acesso, pelo desconhecimento ou até pelo medo do preconceito.

Mas… e quem está por trás desses números?

Se o Censo revela milhões de pessoas autistas, ele também fala, silenciosamente, sobre milhões de famílias. E, dentro dessas famílias, há uma presença que quase sempre se destaca: a mãe atípica.

Ela é, na maioria das vezes, quem acompanha o desenvolvimento, organiza terapias, enfrenta filas, lida com diagnósticos, busca inclusão escolar e social, administra a casa e ainda precisa sustentar emocionalmente toda essa jornada.

O adoecimento que ninguém quer ver

O impacto dessa rotina intensa não é pequeno. Pesquisas mostram que mães de crianças no espectro autista apresentam níveis elevados de ansiedade, depressão, estresse e esgotamento físico e emocional.

Não é difícil entender o porquê. A sobrecarga vem da soma de fatores: o cuidado constante, as incertezas sobre o futuro, o preconceito, as barreiras de acesso aos serviços e a solidão que muitas vezes acompanha essa caminhada.

Por que precisamos falar sobre isso?

Porque cuidar de quem cuida não é um gesto de gentileza, mas uma necessidade social urgente.

Essas mães não podem ser vistas apenas como guerreiras ou heroínas. Elas são, antes de tudo, mulheres, pessoas que também precisam de cuidado, acolhimento, descanso e espaço para viver sua própria vida, além da maternidade.

Quando a sociedade ignora esse adoecimento silencioso, compromete não só o bem-estar dessas mulheres, mas também a qualidade do cuidado oferecido às próprias crianças e jovens no espectro.

Cuidar de quem cuida é uma responsabilidade coletiva

É urgente que existam políticas públicas que garantam acesso a suporte psicológico, redes de apoio, atendimentos especializados e alívio da sobrecarga.

Para refletir…

O Censo trouxe os números. Mas eles, sozinhos, não bastam. Precisamos transformar esses dados em ações, em empatia, em acolhimento. Porque falar sobre autismo é, também, falar sobre quem cuida. E cuidar de quem cuida é um passo essencial para construir uma sociedade mais justa, sensível e verdadeiramente inclusiva.

Marcele Campos
Psicóloga Especialista em Neuropsicologia (Avaliação e Reabilitação) e Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo, Atrasos de Desenvolvimento Intelectual e Linguagem. Trabalha há mais de 28 anos com crianças e adolescentes. Proprietária da Clínica Neurodesenvolver.

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