Leitura, seu universo e seus personagens

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As transformações são a marca da tecnologia nos diferentes mercados, e elas também chegaram ao editorial. Os ebooks, livros digitalizados, podem parecer os principais concorrentes dos livros físicos, aqueles que antigamente eram objetos de ostentação em muitas estantes. No entanto, o audiovisual também tem sua parcela de responsabilidade em ter atraído alguns leitores para as redes sociais. É possível encontrar vídeo aulas, conteúdos explicativos, críticas e análises sobre a maioria dos assuntos na internet. Isto parece mais prático do que passar horas lendo ou precisar ir até uma livraria, biblioteca ou um sebo, tendo tudo a um clique de distância. Porém há ainda pessoas de diferentes idades, apaixonadas pelas clássicas características dos livros. A textura das páginas, a espessura da capa, o cheiro do material e o ambiente que envolve os livros, os livreiros e os leitores. Os sebos em especial reúnem pessoas que buscam uma alternativa para economizar na hora de comprar o título que procura, ou que gostam de ter uma obra clássica, com um autógrafo do autor ou uma edição específica. “Estou procurando uma revista do Batman que se passa no século XIX. O grafismo da história me chama a atenção.” conta Fabrício Ribeiro entre as pilhas de revistas em quadrinhos. Ele é professor de artes visuais e tem o sonho de publicar algumas histórias próprias.

De acordo com Oseias Oliveira, um dos vendedores de livros mais antigos de Volta Redonda e dono do sebo em que Fabrício procura sua revista específica, a adaptação que ele e os filhos fizeram na empresa foi aderir as vendas online. “Eu acredito que as pessoas estão lendo mais pelo fato de trabalhar na internet com meu filho e ver boa saída de livros, a gente vende bastante, o que não para de vender são os clássicos usados da literatura brasileira, Machado de Assis, Jorge amado.” explica o comerciante que começou como camelô nos anos 90 vendendo LPs, mas continua até hoje e além dos livros e discos vende tambem CDs, DVDs e outros materiais colecionáveis num antigo edifício no bairro Aterrado. Ele se declara um amante da música. “Fiquei dez anos fora do ramo, mas isso aqui é o que eu amo”. declarou Oséias.

PROFISSÃO E AMOR

Clóvis do Carmo também é dono de um sebo onde é possível encontrar revistas, livros, CDs, DVDs e LPs. Há 11 anos ele voltou para sua cidade natal e com o incentivo de um amigo dono de uma livraria em Juiz de Fora realizou a ideia de trazer para Volta Redonda o mesmo modelo de estímulo a leitura. “Morei em Juiz de Fora 21 anos, lá eu via como era barato e prático ter acesso a cultura. Você comprou um livro de 10,00, leu, volta e troca por outro pagando 5,00. Eu ficava babando e eu trouxe a ideia p minha cidade”, explica o livreiro.

Depois de enfrentar uma separação, virar a vida de cabeça para baixo e passar por um tratamento contra a depressão o amigo da cidade mineira o convidou para ser sócio em Volta Redonda,  foi assim que a rua São João, no Centro se tornou o endereço de mais um sebo. “Mas é um ramo gostoso que você não faz ideia. Já fui representante, vendedor externo, interno, em tudo quanto é ramo, material de construção, eletrodoméstico. Em todos esses ambientes você recebe clientes muitas vezes contrariados por ter que estar ali gastando. Aqui não! Quem entra aqui para minar minha energia? O cara pisa aqui ele está pensando em coisas que dão prazer a ele. está buscando descontrair, a onda é outra, a energia é outra. É um ramo gostoso, além de você aprender sempre”, conta Clovis realizado.

A estudante de filosofia de 24 anos, Ingrid Reis, trabalha há algumas semanas no sebo e concorda com seu patrão. “Sempre tem pessoas diferentes, é um ponto de encontro de todo tipo de gente. Eu gosto muito de ler, me identifico muito. O bom é que eu indico livros para os meus amigos, e eles acabam me considerando uma referência”, relatou alegre a funcionária.

Segundo Clóvis tanto a procura por revistas em quadrinhos quanto por revistas usadas para fazer arte com colagem cresceu de uns tempos para cá. Thiára Almeida  faz arte com recortes de revistas desde criança . “Venho aqui porque tem mais revistas e eu posso dar uma olhada e escolher. Quando eu folheio já consigo saber se da para aproveitar aquela revista para alguma coisa ou não. E tem lugares que o vendedor é quem seleciona, também já fui em bancas, mas eles vendem caro.” explicou a publicitária.

Mas Clovis também ressaltou que o ramo é sim ou pouco mais devagar e no começo de seu negócio demorou um pouco para entender quem era seu público.  “Com dois anos aqui eu estava pensando em entregar a loja, passando alguma dificuldade. E o Thoth, o livreiro pioneiro em Volta Redonda me ofereceu ajuda em dinheiro. Alguém que seria meu concorrente, o natural seria querer me ver quebrado, mas eu pensei: Peraí o cara está acreditando no meu negócio porque eu não vou acreditar?” explicou afirmando que os dois livreiros mantém uma parceria. “Nós indicamos clientes um para o outro, já tem pouco leitor, já tem pouco livreiro, tem que ser parceiro mesmo” concluiu o vendedor otimista.

Sobre sua profissão Clovis escolheu uma frase de Torrieri Guimarães que escreveu na parede de seu estabelecimento para defini-la “O livreiro semeia livros, não colhe aplausos, mas tem em cada cliente conquistado a gratissima certeza do dever cumprido, e isso lhe basta”. O autor da frase era jornalista e crítico literário, morto em 2009.

ADMIRADORES

Thoth é o deus egípcio do intelecto e da escrita, correspondente ao deus grego Hermes e ao romano Mercúrio. Este é o mensageiro dos deuses e um deus da comunicação e escrita associado ao elemento químico que assim como o conhecimento, não se pode retê-lo. Sempre é passado adiante. Carlos Silva descobriu isso folheando um livro e assim ficou conhecido na cidade. Ele é um admirador de filosofia, português, natural de Coimbra e chegou a Cidade do Aço em 1979, com 19 anos fugindo da ‘Guerra em África’ com sua família. Antes de se estabelecer no ponto em que está há 17 anos esteve em outros dois endereços no bairro Vila Santa Cecília. “Aqui é assim, a pessoa entra dentro do meu box para escolher o livro, aqui dentro tem uma sensação diferente, contrasta com o ambiente do Mercado Popular, um lugar de trânsito diário de pessoas e movimentos.” explica Carlos

Tot, como passou a se apresentar, trabalhou sete anos como gerente de supermercado e pediu demissão para fazer o que gostava. Há 26 anos é livreiro. “Eu sempre gostei de ler e meus amigos que não tinham o mesmo hábito me pediam indicações, e acabavam voltando para pedir outras dicas. Eu percebi que levava jeito para isso e era prazeroso para mim.” relatou com um sorriso no rosto.

Carlos Silva, o Tot em seu box de livros no Mercado Popular – Foto Fábio Guimas

O estabelecimento de Tot vende apenas livros, novos e usados. Seus clientes são fiéis, e os novos geralmente vem por indicação. Ele conta que hoje atende jovens que seus pais ou avós já frequentavam o sebo. Diz também que com frequência pessoas de outros estados e cidades que  vêm estudar ou trabalhar em Volta Redonda aconselham familiares, amigos e conhecidos que quando estiverem na cidade passem pelo box do Tot no Mercado Popular. “As vezes as pessoas vem aqui conversar sobre política, filosofia ou outros assuntos e no fim levam um livro. Isso aqui tem algo muito pessoal meu. Eu já tentei ter funcionário, mas as minhas vendas caíram 70%, não é venda de um produto qualquer. Você tem que ser sensível a ponto de ler o cliente e ser capaz de indicar a ele leituras que combinem com ele, respeitando os diferentes gostos, sem preconceito. Aprendi que o cliente sempre tem razão. Assim ele toma gosto pela leitura e se torna além de um cliente fiel um leitor”. explicou o livreiro pioneiro na cidade que ainda conserva um costume cultural que está em falta em algumas cidades da região.  A cultura dos sebos não está escondida apenas nas estantes, mas nas histórias dos apaixonados por livros que se cruzam nestes espaços.

DO GUARDA-ROUPA AO COFRE

Arte Colagem – Foto Divulgação/Thiára Almeida

Talvez você já tenha decorado cadernos com recortes de revistas como uma brincadeira e nem sabia que estava produzindo arte. A técnica artística de sobrepor imagens retiradas de diferentes lugares para compor uma única peça é chamada de Colagem. Thiára Almeida é publicitária e assim como a maioria das crianças descobriu o recorte e cole nas aulas do jardim de infância, se identificou e começou a reproduzir a técnica em alguns objetos  “A minha primeira colagem foi na porta do guarda-roupa do meu quarto, eu achava ele muito sem graça e comecei a cortar coisas e colar ali. primeiro colei fotos, depois recortava de revistas e consegui cobrir ele todo, até hoje as colagens estão lá. Eu devia ter uns 10 anos.” lembrou acrescentando que depois foi a vez dos cadernos de escola.

A alegria e o bem-estar consigo mesma são a principal motivação para criar e a inspiração vem do que ela vivenciou ou pretende realizar na sua vida. “As vezes eu acho que eu tenho que ter mais calma na minha vida, então enquanto estou criando eu presto atenção em algo que represente calma para mim, pode ser que apareça uma flor no meio de uma tempestade na minha arte.” explicou a publicitária que diz usar o processo criativo como um momento de ficar sozinha e realizar uma autorreflexão.

A arte com colagem e também uma opção para presentear alguém porque pode criar uma lembrança personalizada com histórias em comum com a pessoa. “Já fiz quadros, caixas, cofres para amigos, para mim mesma, para minha mãe.” contou Thiára.  Cada pessoa, objeto, presente carregam um significado assim como as sensações da artista no momento de criar e por isso ela prefere manter como um passatempo e um momento pessoal.

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