Iphan e moradores se unem para conservar igreja mais antiga de Paraty

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PARATY

Cal, pedra e ferro são alguns dos elementos físicos que compõem o Patrimônio Cultural edificado. Mas além do que é captado pelo olhar, os monumentos despertam sentimentos que integram a dimensão simbólica desses bens culturais. Afeto, identidade e pertencimento, por exemplo, são evocados pela comunidade do bairro de Paraty-Mirim, em Paraty (RJ), para se referir à Igreja de Nossa Senhora da Conceição.

O vínculo da população é tão forte com o templo que a comunidade tradicional e a Associação de Moradores de Paraty Mirim (AMPM) levantaram doações para a preservação do monumento. Através de trabalho voluntário, vão executar obras de conservação a partir desta terça-feira (17). Para essa missão contam com orientações técnicas do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), autarquia federal vinculada à Secretaria Especial da Cultura e ao Ministério do Turismo, além do apoio da Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios.

Serão executados reparos no piso e telhado, descupinização, pintura externa e recuperação dos revestimentos compostos por argamassas tradicionais. A equipe de obra e os materiais foram cedidos por um empresário local. A estimativa é que as intervenções se encerrem em 10 dias.

Outro atrativo da ação consiste na oficina de argamassas tradicionais à base de cal, a ser executada no canteiro de obras. O intuito é difundir o conhecimento das técnicas tradicionais de construção, que, por vezes, se perde diante do avanço de novos métodos.

“Esperamos que esta iniciativa pioneira de parceria com a comunidade local possa inspirar ações semelhantes em outros locais do Brasil”, celebra o superintendente do Iphan-RJ Olav Schrader. “A escassez de recursos públicos não pode impedir as instituições de buscar soluções alternativas para a conservação dos bens culturais. Precisamos abraçar a sociedade, colocar as mãos na massa e enfrentar juntos os desafios do nosso Patrimônio Cultural”, conclui.

Com origem em 1720, o bem é considerado a igreja mais antiga de Paraty. De ar bucólico, o templo se destaca na paisagem por sua arquitetura singela, realçada pela cobertura vegetal que reveste as encostas da serra ao fundo. Apresenta na fachada um traço raro nos imóveis da região: um campanário, ou seja, uma estrutura para sustentar o sino. No geral, os campanários estão embutidos em torres. Neste caso, trata-se de uma estrutura sem torre, fixada na fachada da edificação.

Assim como o bairro histórico de Paraty, Paraty-Mirim também foi uma importante vila comercial nos séculos XVIII e XIX. Em 1974 o Iphan tombou o Conjunto Arquitetônico e Paisagístico da cidade, que inclui a Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Desde a década de 1970 o Instituto vem executando obras de conservação no imóvel. A última intervenção com investimentos da Autarquia ocorreu em 2008.

Em 2019, Paraty e Ilha Grande (RJ) foram reconhecidas como Patrimônio Mundial pelo Comitê da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Trata-se do primeiro bem brasileiro inscrito na categoria de sítio misto, que contempla aspectos culturais e naturais. Abrange um território de quase 149 mil hectares, em que o centro histórico se cerca de quatro áreas de conservação ambiental.

Nesta região, uma cultura viva e ancestral coexiste com um ambiente natural e exuberante. Ali, testemunhos culturais incluem o centro histórico e a fortificação que deu origem à ocupação do núcleo urbano de Paraty, diversos sítios arqueológicos, uma porção do antigo Caminho do Ouro e comunidades tradicionais, como a que agora abraça a preservação de sua igreja mais antiga.

Em carta enviada ao Escritório Técnico do Iphan na Costa Verde, a AMPM defende que a parceria com o Iphan para a preservação do templo resgata a história de Paraty-Mirim para as futuras gerações. “A comunidade tradicional caiçara de Paraty-Mirim tem como sua identidade cultural e religiosa a Igreja de Nossa Senhora da Conceição”, ressaltam.

A iniciativa do Iphan com a população de Paraty-Mirim demonstra como a comunidade pode se apropriar do Patrimônio Cultural, atuar para valorizá-lo e reconhecer neste acervo o seu papel como guardiões do legado histórico e artístico brasileiro