Nas últimas semanas, o debate sobre o uso de telas por crianças e adolescentes voltou ao centro das discussões no Brasil e no mundo. Novas recomendações, posicionamentos de especialistas e movimentos de escolas têm provocado uma reflexão necessária: como equilibrar tecnologia e desenvolvimento saudável em uma geração que já nasce conectada?
Enquanto algumas crianças estão hiperexpostas às telas desde muito cedo, outras enfrentam limitações de acesso, o que também impacta oportunidades educacionais. Ainda assim, um ponto é consenso entre especialistas: o uso excessivo e desregulado de dispositivos digitais pode trazer prejuízos importantes ao desenvolvimento infantojuvenil.
A infância é um período decisivo para a formação das bases cognitivas, emocionais e sociais. É nesse momento que se desenvolvem habilidades como linguagem, atenção, memória, controle emocional e interação com o outro. Essas competências não emergem de forma automática e elas dependem de experiências concretas, trocas afetivas e vivências no mundo real.
Quando a tela ocupa um espaço central e substitui interações humanas, há um empobrecimento dessas experiências. Crianças pequenas, por exemplo, precisam de contato olho no olho, brincadeiras simbólicas e diálogo para desenvolver linguagem e cognição social. A exposição precoce e prolongada a conteúdos digitais pode estar associada a atrasos na fala, dificuldades de atenção e menor engajamento social.
Entre os adolescentes, o cenário assume outra dimensão. As redes sociais introduzem dinâmicas de comparação constante, busca por validação e exposição a estímulos rápidos e intensos. Esse ambiente pode favorecer quadros de ansiedade, alterações de humor, baixa autoestima e dificuldades na regulação emocional. Soma-se a isso a interferência no sono , frequentemente negligenciada, mas essencial para o funcionamento cognitivo e a saúde mental.
É importante destacar que a tecnologia não deve ser vista como vilã. Ela é ferramenta, recurso e, muitas vezes, aliada do aprendizado. O problema está no uso indiscriminado, sem mediação e sem critérios. O desafio contemporâneo não é eliminar as telas, mas ensinar a usá-las com consciência.
Nesse contexto, o papel da família e da escola é fundamental. Estabelecer limites claros, acompanhar conteúdos, incentivar atividades fora do ambiente digital e, sobretudo, oferecer presença e vínculo são estratégias essenciais. Mais do que controlar o tempo de tela, é preciso qualificar as experiências das crianças e adolescentes.
Outro aspecto que merece atenção é o exemplo dos adultos. Crianças aprendem menos pelo discurso e mais pela observação. Em uma sociedade onde os próprios adultos estão constantemente conectados, refletir sobre nossos hábitos digitais também se torna parte do cuidado com o desenvolvimento infantil, inclusive tenho conversado muito sobre isto com as famílias que atendo. Aprendizagem se dá com modelos e nós, pais, somos estes modelos.
Em tempos de avanços tecnológicos acelerados, é legítimo que famílias se sintam inseguras sobre qual caminho seguir. No entanto, algumas direções são claras: crianças precisam brincar, se movimentar, interagir, experimentar o mundo com o corpo e com o outro. Precisam de tempo, de escuta e de presença.
Garantir isso, em meio a tantas distrações digitais, talvez seja um dos maiores desafios e também uma das maiores responsabilidades da nossa geração.
Porque, no fim, desenvolver uma criança não é apenas conectá-la ao mundo digital, mas, sobretudo, garantir que ela não se desconecte de si mesma e dos outros.
Marcele Campos
Psicóloga Especialista em Neuropsicologia (Avaliação e Reabilitação) e Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo, Atrasos de Desenvolvimento Intelectual e Linguagem. Trabalha há mais de 28 anos com crianças e adolescentes. Proprietária da Clínica Neurodesenvolver.