VOLTA REDONDA/SÃO PAULO
Na última segunda-feira, 26, o jornal A VOZ A CIDADE informou que a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) avalia uma reestruturação da siderurgia, com a possibilidade de adoção de um modelo semelhante ao já aplicado na área de mineração. A informação caminhou em sentido oposto a notícias divulgadas por outros veículos, que apontavam até mesmo a possibilidade de venda total da Usina Presidente Vargas (UPV), em Volta Redonda.
A hipótese de venda integral da siderurgia foi negada pelo controlador da CSN, Benjamin Steinbruch, em entrevista ao Brazil Journal. Questionado diretamente sobre a possibilidade de a companhia vender 100% do setor, ele foi categórico ao afirmar que não se trata dessa intenção. “O que acontece é que toda a siderurgia brasileira está num ciclo muito difícil. São plantas construídas nas décadas de 50, 60 e 70, que precisam de uma renovação brutal de tecnologia e equipamentos para serem competitivas e, ao mesmo tempo, atender às normas ambientais”, afirmou.
Segundo Steinbruch, a evolução tecnológica tornou obrigatória a adequação da indústria às exigências ambientais, algo que não existia no passado. “Antes não existia. Então as empresas precisam passar por duas reformas profundas: uma de competitividade e outra ambiental. Isso exige investimentos enormes”, completou.
Na prática, a indústria siderúrgica precisa se transformar em duas frentes simultâneas: produzir com mais eficiência e reduzir impactos ambientais — um processo caro e complexo. Paralelamente, a CSN estabeleceu como meta reduzir de forma acelerada seu nível de endividamento ainda em 2026. A meta é reduzir a dívida líquida em até R$ 18 bilhões neste ano.
O debate ganhou força após a companhia anunciar um programa agressivo de venda de ativos, com o objetivo de diminuir a alavancagem financeira. Sobre essa decisão, Benjamin Steinbruch admitiu que a empresa demorou mais do que deveria para agir, apontando como fatores determinantes o atual patamar dos juros e a necessidade de investir na modernização do grupo.
Na entrevista, o empresário afirmou estar aberto a negociações, mas deixou claro que a estratégia é preservar o controle da maior parte dos ativos. Entre as exceções, mencionou a possibilidade de venda de participação na Transnordestina e admitiu que, no segmento de cimento, a CSN pode eventualmente perder o controle acionário. “Nos demais, a nossa preferência é manter o controle. Mas quando você vai ao mercado com um programa desse tamanho, você não sabe o que vem. Então você precisa estar aberto a tudo”, afirmou.
Ao ser questionado sobre a inexistência de alternativas, Steinbruch destacou que o Brasil vive um processo de desindustrialização e criticou a falta de uma reação mais firme do governo, especialmente em relação à concorrência do aço chinês. Segundo ele, o cenário é agravado pela escassez de financiamento adequado ao setor industrial. “Tirando o BNDES, não há nenhuma fonte de financiamento compatível com a realidade da indústria. E mesmo o BNDES atende talvez 10% da necessidade do setor”, disse.
Na avaliação do empresário, esse contexto empurra a indústria nacional para a obsolescência tecnológica e dificulta o cumprimento dos padrões ambientais modernos. “O que estamos buscando é investimento que nos permita modernizar, reduzir custos, ganhar produtividade e atender às normas ambientais. Isso passa por parceria estratégica, por tecnologia e por equipamentos”, ressaltou.
Ao final, Steinbruch foi enfático ao afirmar que a siderurgia brasileira precisa se modernizar para sobreviver e criticou o modelo de abertura comercial do país. “O Brasil é talvez o único país totalmente aberto a importações descontroladas e, ao mesmo tempo, praticamente impedido de exportar. Não se trata de protecionismo, mas de igualdade de condições. Se não podemos exportar, não podemos deixar que importem livremente”, afirmou.
Enquanto a siderurgia enfrenta esse cenário adverso, o controlador da CSN vê maior previsibilidade e segurança em áreas como infraestrutura e logística (ferrovias e portos), energia — especialmente limpa — e mineração, setores que apresentam receitas mais estáveis e menor volatilidade.
Vereador pede esclarecimentos à CSN
O vereador Rodrigo Furtado (PL) protocolou ofício junto à CSN, em Volta Redonda, solicitando esclarecimentos oficiais sobre rumores de possível venda de ativos da companhia, incluindo a Usina Presidente Vargas (UPV).
A iniciativa ocorreu após reportagens da imprensa econômica nacional e, segundo o parlamentar, tem caráter institucional e informativo, diante da preocupação de trabalhadores e da população com possíveis impactos econômicos e sociais.
Rodrigo Furtado afirmou que a CSN tem papel histórico e estratégico para o município e que aguarda resposta oficial da empresa para informar a sociedade sobre os desdobramentos.