Crianças, telas e consumo: o alerta que as famílias precisam ouvir agora

Por Carol Macedo
a voz da cidade

Esta semana, em atendimento com uma família, ajustamos rotinas e falamos sobre ensinar as crianças sobre desejo, compra e necessidade. Hoje, a infância já não vive somente no quintal, nas brincadeiras improvisadas ou nas histórias inventadas. Ela também acontece nas telas, um espaço colorido, rápido e barulhento onde marcas, tendências e algoritmos disputam a atenção dos pequenos. E, nessa disputa, quem acaba no centro da pressão são as famílias.

Com a explosão dos vídeos curtos, crianças muito novas passaram a ser o público preferido de conteúdos feitos para estimular desejos que mudam toda semana. É música grudenta, brinquedo que “todo mundo tem”, unboxing que promete felicidade em 15 segundos e personagens que parecem falar direto com o coração das crianças.

Uma criança pequena ainda não tem maturidade para entender a diferença entre querer e precisar. Para ela, tudo parece urgente. Os vídeos são projetados justamente para isso: prender, empolgar, convencer.

O resultado?

A cada novo vídeo, um novo pedido.

A cada desejo não atendido, uma frustração intensa.

E a cada compra, uma alegria curta, que logo dá lugar a outro impulso.

Esse ciclo cria uma relação emocional com o consumo que pode acompanhar a criança até a vida adulta: a sensação de que comprar é o caminho mais rápido para se sentir bem.

Efeitos que vão além da carteira

O problema não é só financeiro, embora isso também pese.

O consumismo infantil pode gerar irritabilidade, ansiedade, impaciência e dificuldade de encontrar prazer no simples.

Quando a diversão sempre vem pronta, colorida e entregue em segundos, o brincar espontâneo perde espaço. A criatividade encolhe. O afeto se confunde com coisas. E a comparação com vidas “perfeitas” da internet pode abalar a autoestima.

O problema não é a tela. É a falta de mediação.

Não se trata de demonizar a tecnologia. Há vídeos educativos, conteúdos que estimulam a imaginação, canais responsáveis. A questão é quem filtra, quem acompanha e quem dá sentido ao que aparece ali.

Crianças precisam de limites e de adultos que conversem, contextualizem e ensinem a navegar nesse mundo que elas ainda não entendem completamente.

O que as famílias podem fazer hoje

Não é preciso uma revolução. Pequenas escolhas mudam muito: definir tempo de tela claro e coerente.

Selecionar canais confiáveis, evitando aqueles que só mostram compras e coleções.

Assistir junto sempre que possível, para comentar, explicar e questionar.

Incentivar mais brincadeiras reais, com o que já existe em casa.

Ensinar sobre propaganda, desejo e necessidade de um jeito simples e direto.

A autonomia começa cedo e começa com diálogo.

Desacelerar para proteger a infância

No ritmo acelerado das telas, tudo vira “agora”, “preciso”, “é só pedir”. Mas educar é justamente o oposto: é desacelerar. É mostrar que felicidade não está no próximo pacote que chega pelo correio, mas nas relações, no tempo compartilhado, na brincadeira que nasce da imaginação.

Entre tantas telas que incentivam a querer mais, consumir mais e pedir mais, o maior presente que uma família pode dar a uma criança é algo que nenhum vídeo entrega: um olhar seguro e valores que não cabem em carrinhos de compras.

Marcele Campos
Psicóloga Especialista em Neuropsicologia (Avaliação e Reabilitação) e Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo, Atrasos de Desenvolvimento Intelectual e Linguagem. Trabalha há mais de 28 anos com crianças e adolescentes. Proprietária da Clínica Neurodesenvolver.

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