Autismo, política e a urgência de separar opinião de ciência

Por Carol Macedo
marcele atual

 

Mais uma vez, declarações políticas colocam em xeque um dos temas mais sensíveis da saúde pública: o autismo. O recente pronunciamento do presidente Donald Trump, associando o uso de paracetamol na gestação e vacinas ao aumento dos casos de Transtorno do Espectro Autista (TEA), é mais do que um equívoco científico.  é um risco social.

Não é a primeira vez que discursos sem respaldo sólido tentam criar culpados externos para o autismo. Já vivemos, no passado, a histeria infundada sobre vacinas, originada de um movimento que até hoje alimenta movimentos antivacina. Agora, o alvo é o paracetamol, uma das poucas opções seguras para gestantes em situações específicas. A ciência, entretanto, é clara: embora alguns estudos observacionais levantem correlações, pesquisas robustas, não encontraram relação causal entre o uso do medicamento e o autismo. Quanto às vacinas, a comunidade científica já consolidou, há décadas, que não há qualquer ligação com TEA.

O que me preocupa, como profissional da saúde, não são apenas as declarações em si, mas os efeitos que elas provocam. Cada vez que uma autoridade política levanta esse tipo de hipótese como se fosse verdade, famílias entram em pânico, gestantes cogitam abandonar tratamentos, e movimentos contrários à vacinação ganham fôlego. Em vez de informar, discursos assim desinformam. Em vez de proteger, colocam em risco.

Se quisermos falar seriamente sobre o aumento no número de diagnósticos de autismo, precisamos admitir a realidade: ele decorre do avanço nos critérios diagnósticos, do olhar mais atento de profissionais e da ampliação da consciência social. Não de vacinas. Não de remédios.

E aqui está o ponto central: o diagnóstico de TEA exige critério, base científica e trabalho em equipe multiprofissional. Neuropediatras, psicólogos, neuropsicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais têm papéis complementares nesse processo. Só assim é possível diferenciar autismo de outras condições, compreender a singularidade de cada criança e planejar intervenções que realmente transformem vidas.

O autismo não precisa de culpados inventados. Precisa de políticas públicas que ampliem o acesso a diagnósticos sérios e a tratamentos eficazes. Precisa de informação de qualidade, livre de sensacionalismo. E precisa, sobretudo, que lideranças políticas falem com responsabilidade, reconhecendo que a ciência não se curva a opiniões, por mais barulhentas que elas sejam.

A ciência é Clara: o Transtorno do Espectro Autista (TEA) resulta da interação entre fatores genéticos e ambientais. Entre eles, a predisposição genética exerce papel predominante, já que pesquisas científicas identificaram mais de mil genes associados ao desenvolvimento da condição.

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