Alterações negativas em órgãos vitais são provocadas pelo excesso de exercícios

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Os considerados ‘atletas de elite’ costumam apresentar alguma queda no rendimento quando submetidos a um treinamento muito intenso, sem que tenha um período adequado de recuperação da musculatura que, segundo especialistas, deve ser entre 24 e 48 horas. O quadro é conhecido como síndrome do overtraining(1) e pode incluir sintomas como perda de apetite, de peso, e ainda, insônia, irritabilidade, queda na imunidade e o surgimento de depressão.

A explicação mais aceita para o fenômeno, até o momento, é a de que lesões no tecido musculoesquelético causadas pelo excesso de exercício induziriam a liberação, na corrente sanguínea, de substâncias pró-inflamatórias – proteínas produzidas por células de defesa e conhecidas como citocinas(2) -, que desencadeariam os efeitos sistêmicos. A teoria das citocinas, como ficou conhecida, foi formulada há duas décadas.

Recentemente, uma série de estudos conduzidos na Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, demonstrou que as consequências do overtraining para o organismo vão muito além da queda no rendimento esportivo, havendo efeitos prejudiciais no tecido musculoesquelético, coração, fígado e sistema nervoso central.

As pesquisas vêm sendo conduzidas nos últimos dez anos, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), sob a coordenação do professor Adelino Sanchez Ramos da Silva, da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto (EEFERP-USP). Os principais resultados foram reunidos em um artigo publicado na revista Cytokine, que reúne também dados de estudos feitos por outros grupos de pesquisa e pode ser conferida através do link: http://bit.ly/2Yd4wgO. “Essas informações devem servir de alerta para quem treina de forma excessiva. Os atletas de elite, muitas vezes, não têm opção devido à pressão de treinadores, patrocinadores e competições. Mas é fundamental que seja ao menos respeitado o tempo mínimo de recuperação”, alertou o coordenador da pesquisa.

DISCURSO DE VIDA SAUDÁVEL

Nesse contexto, do estudo apresentado pela Universidade de São Paulo, o A VOZ DA CIDADE conversou com o professor de Educação Física, especialista em Ciências do Treinamento Desportivo de Alto Nível, pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Fernando Marlos. Ele disse que o discurso de vida saudável é visto na maioria das pessoas que pratica algum tipo de atividade física. “Cuidar da saúde é muito importante, no entanto, as dietas, treinamentos sempre devem ser acompanhados e/ou sob a orientação de um profissional especializado para que ele possa indicar a carga de treinos adequada para cada individuo”, comentou Marlos.

Ele faz o alerta para os cuidados que deverão ser tomados quando da realização de um treinamento físico, principalmente com a carga e o tempo de atividade a ser realizada. “Quando temos uma grande carga de exercícios físicos e o nosso corpo reclama, chamamos de overtraining. O excesso de treinamento pode ocorrer quando o individuo realiza exercícios e o corpo não é capaz de se recuperar para um novo dia de treinamento. De maneira, até mesmo involuntária, por pensar que está bem, ele poderá exagerar na atividade com um volume e intensidade acima do seu próprio limite, o que comprometerá sua massa corpórea podendo ocorrer irritabilidade, frequência cardíaca, em repouso, mais alta do que o normal, queda de rendimento, lesões articulares e musculares, entre muitas outras”, citou o professor.

DICAS

Fernando Marlos deixa dicas superimportantes para quem quer começar ou intensificar uma atividade física já visando o próximo verão, ou mesmo melhorar seu rendimento. “A primeira ação para um treinamento seguro é procurar um médico que realizará uma bateria de exames para uma melhor avaliação. Após estar de posse do atestado médico lhe dando condições para alguma atividade física, procure um professor de educação física para que ele possa prescrever um treinamento individualizado mais adequado, seguindo as recomendações médicas” recomentou o especialista lembrando que, uma dieta inadequada e uma péssima noite de sono também causará um overtraining.

Ainda sobre dicas para um bom treino, Marlos recomenda uma consulta a um nutricionista. “Para realizar um treinamento com qualidade uma dieta específica para cada individuo deverá ser preparada por um nutricionista que poderá, em conjunto com o professor de educação física, auxiliar a pessoa a chegar a uma performance adequada. Com essas recomendações os praticantes poderão realizar os seus treinamentos de maneira mais adequada, eficaz e muito mais segura”, acrescentou Fernando Marlos, afirmando que é de suma importância que, quando for diagnosticado o overtraining, o treinamento seja diminuído pelo profissional de educação física que tiver acompanhando o atleta e também procurar a orientação de um nutricionista.

PROFISSIONAL DA ÁREA NUTRICIONAL

O A VOZ DA CIDADE também conversou com a nutricionista Aline Andrade sobre os problemas causados pelo excesso de atividade física. Ela disse que, tão importante quanto à pessoa procurar um professor de educação física, é também, de grande importância procurar a orientação de um profissional da área nutricional. “Muitos atletas ou pessoas fisicamente ativas não dão muita importância para a alimentação, por que na maioria das vezes elas acham que a prática do exercício físico já é suficiente e deixam de lado a alimentação saudável. Se a pessoa tem um objetivo a ser traçado, seja de perda de gordura, ganho de massa ou melhora no desempenho físico, é primordial que ela saiba que a alimentação voltada para a atividade física praticada é muito importante para chegar ao objetivo”, comentou Aline.

Ela cita que muitos são os fatores para definir qual tipo de alimentação antes e depois do treino, como: tipo de atividade física, horário da atividade física, quanto tempo antes se tem para se alimentar, qual objetivo a ser atingindo e sempre levando em consideração a individualidade do atleta. “A alimentação pré-treino tem como objetivo conter nutrientes necessários para fornecer energia, aumentar a resistência e a força muscular, evitar a hipoglicemia durante o treino, manter o bom estado de hidratação e evitar o catabolismo muscular” citou a nutricionista acrescentando que a refeição que antecede o treino depende do horário em que a pessoa vai treinar e quanto tempo antes terá para se alimentar. “Se a pessoa treina ao acordar, como não tem muito tempo para se alimentar antes, ela precisa de carboidratos de rápida absorção e de gorduras boas, como por exemplo: um suco de beterraba com melancia, gengibre e farinha de linhaça ou banana com farelo de aveia e óleo de coco. Já para a pessoa que tem um tempo maior para se alimentar cerca de 1 hora ou mais, pode incluir no pré-treino os carboidratos de absorção mais lenta e proteínas como, por exemplo, a batata doce, inhame com frango ou um sanduíche natural com atum”, enumerou a nutricionista.

ALIMENTAÇÃO PÓS-TREINO

Foto: Divulgação/Blog Emagrecimento


Já a alimentação pós-treino, de acordo com Aline Andrade, tem como objetivo agilizar a recuperação muscular e do organismo, repor os estoques de glicogênio(3) perdido durante o treino, repor líquidos, alimentar as células do sistema imunológico, reconstruir as fibras musculares e renovar o corpo para o próximo treino. “Essa refeição depende muito do objetivo a ser traçado e do tipo de atividade física praticada. Porém de forma geral o ideal é consumir proteínas como whey protein, ovo, frango e peixe e, se necessário, carboidrato de rápida absorção, como arroz branco, sempre respeitando a individualidade de cada um, cada metabolismo é diferente, o tipo de atividade física pode ser diferente, cada uma requer um tipo de nutriente, por isso é importante sempre o acompanhamento de um nutricionista esportivo para indicar os melhores alimentos, não só no pré e pós-treino, mas durante todo o dia”, complementou a nutricionista.

 Overtraining (1) – É uma condição resultante de se fazer mais exercícios do que seu corpo é capaz de se recuperar em um curto espaço de tempo. É fator agravante de uma dieta incorreta e a falta de descanso;

Citocinas (2) – Termo genérico empregado para designar um extenso grupo de moléculas envolvidas na emissão de sinais entre as células durante o desencadeamento das respostas imunes;

Glicogênio (3) – É um polissacarídeo e a principal reserva energética nas células animais e bactérias como as cianobactérias, antigamente chamadas de algas azuis, encontrado, principalmente, no fígado e nos músculos.

 

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