A internet e suas formas de ser violenta

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SUL FLUMINENSE

CAROL MACEDO

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No final do ano passado o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou dados de acesso a internet no Brasil. Passou de 64,7% para 69,8% o percentual de brasileiros com dez anos ou mais (181 milhões da população) que acessaram a internet de 2016 para 2017. São quase dez milhões de novos usuários na comparação entre o último trimestre de cada ano. É fato, e os números apontam isso, que há um crescimento e indicativos de que os acessos crescerão cada vez mais. E com isso, os problemas que a internet traz também se elevam na mesma proporção, como as notícias falsas (Fake News); a perda da capacidade de ajudar o próximo quando algo acontece e um celular é lançado para registrar o momento ao invés das mãos para socorrer; e a guerra virtual que muitas vezes invade o mundo real, acabando com amizades e estremecendo o núcleo familiar.

Muitas pessoas conhecem Narciso, um personagem da mitologia grega, filho do deus do rio Cefiso e da ninfa Liríope. Ele representa um forte símbolo da vaidade. A chegada das redes sociais potencializou ainda mais a cultura do narcisismo, todos estão cercados de espelhos que não refletem verdadeiramente como nos sentimos, mas o que queremos que o mundo veja em nós. É fato que muitas pessoas adotam no mundo virtual uma postura diferente da vida off-line. Esse é o fenômeno da bolha, onde nas redes sociais as pessoas criam um perfil de quem gostariam de ser e com pessoas que mais se assemelham, com visões que reforcem suas opiniões, ao invés de aproveitar a diversidade que as redes oferecem para rever conceitos e preconceitos.

Para a especialista em Comunicação e Marketing Digital, a professora da disciplina de Meios Digitais do Curso de Jornalismo do Centro Universitário de Barra Mansa (UBM), Suély Zonta, a própria rede social busca reunir pessoas que têm perfis similares. “Quando as pessoas começam a interagir apenas com as que têm pensamentos parecidos, o senso crítico deixa de existir, pois todos pensam parecidos. Na época da campanha isso foi bem visível, as pessoas iam excluindo quem não pensava igual, até familiares”, lembrou, completando que muitas vezes as pessoas têm a consciência que estão fingindo para se enquadrar na bolha.

TAMBÉM PARA O MAL

As redes sociais proporcionam uma aproximação das pessoas em todo o mundo, mas quando esses serviços são usados como um canal de propagação da violência, perdem a finalidade e se tornam do mal, além de um campo de batalha. A internet ressalta o melhor e o pior das pessoas. As fakes news são uma espécie de violência e elas surgiram não apenas para movimentar o âmbito político, mas estão por todos os lados, são campanhas inexistentes, previsões mentirosas, autores inverídicos. Existem na internet portais que verificam a veracidade de notícias, mas é preciso tempo para conferir. E tempo é uma coisa que ninguém mais quer perder hoje. “As pessoas têm acesso a tantas informações ao mesmo tempo que quando batem o olho já querem entender tudo em duas linhas. Com isso já vão aparecendo as informações truncadas que são repassadas adiante. Por outro lado, não temos também a melhor qualidade de internet no Brasil com o problema da quantidade de dados, onde não permite fazer muita coisa. São duas vertentes que precisam ser quebradas e que resultam no repasse de informações sem consciência de ser ou não verdade”, afirmou Suély Zonta.

TERRA SEM LEI?

Além disso, ao se manter no anonimato com perfis falsos ou até mesmo mostrando o rosto, as pessoas ainda tendem a achar que a internet é uma “terra sem lei”. E não é bem assim. Desde 2014 quando o marco regulatório da internet foi firmado, existem regras e punições a quaisquer atos de agressão. Embora pessoas estejam sendo punidas por publicações na internet, o senso de impunidade ainda vigora. Nas redes do A VOZ DA CIDADE, por exemplo, é possível verificar várias ofensas pessoais. Em uma delas, por exemplo, já retirada do ar a pedido de uma das envolvidas, um homem chamou uma mulher de gorda, porca e outras palavras de baixo calão em um comentário sobre reportagem onde o assaltante aparecia com a camisa do presidente Jair Bolsonaro. Ela teria comentado que pensava que quem votava nele fosse honesto.

Para o advogado e professor, Raphael de Andrade Naves, a vida virtual não é diferente da real, pelo menos em termos de aplicação de leis. “Apesar de vivermos em uma sociedade que prestigia a liberdade de expressão, nossa legislação prevê garantias aos direitos da personalidade e, em especial, ao nome. Assim, aquele que expõe alguém ao desprezo público, ao ridículo, será responsabilizado, na forma da lei. O que poucos sabem é que não há imunidade para os excessos praticados por meio das redes sociais, de modo que são penalizados da mesma forma que aqueles cometidos no ambiente real”, destacou.

Segundo o advogado, quem ofende uma pessoa pode ser responsabilizado tanto civil como criminalmente, mesmo que tenha agido assim ao postar um comentário nas redes sociais. “Na área cível, o ofendido poderá pleitear a retirada da postagem ofensiva, bem como indenização em virtude dos prejuízos que lhe tenham sido causados pela conduta, sejam de ordem material ou moral. E, na área criminal, o responsável pela postagem poderá ser condenado a cumprir penas que podem chegar a três anos de prisão”, ponderou.

DESUMANIZAÇÃO PARA POSTAR

Na ânsia de ser o primeiro a publicar, a registrar momentos, até o jornalismo sofre com as redes sociais. Hoje em dia, com um celular nas mãos, o cidadão pode “furar” meios de comunicação com o imediatismo. Basta registrar o momento e espalhar pelas redes. Mas ao fazer isso, em algumas vezes significa abrir mão de ajudar o próximo. Um dos exemplos mais recentes foi o caso do acidente envolvendo a morte do jornalista Ricardo Boechat, 66 anos, no último dia 11, e do piloto Ronaldo Quattrucci, de 56 anos. O helicóptero em que estavam caiu na Rodovia Anhanguera, em São Paulo, em cima de um caminhão. Leiliane Rafael da Silva, 29 anos, foi uma figura de destaque logo após o acidente, pois ela foi uma das pessoas que socorreram o motorista do caminhão João Adroaldo Tomankeves, 52 anos. Ao redor, várias pessoas filmando não apenas essa ação, mas até um corpo pegando fogo.

Para o psicólogo Renan de Morais Souza, o que vemos é uma desumanização. Ele citou um exemplo que considera oportuno para ilustrar a afirmação. Foi o caso do assalto a joalheira em Valença no final do ano passado, onde o homem pegou uma refém pela rua, apontando uma arma na cabeça dela e acabou sendo morto pela polícia. “Não foi apenas o registro do vídeo, mas as pessoas estavam dando palpites e mesmo antes do homem cair no chão morto estavam comemorando. O que percebemos com isso é uma desumanização, porque antes de tudo é uma vida. As pessoas não conseguiam perceber nem que a situação também oferecia risco para elas e estavam filmando”, relembrou.

O psicólogo acredita que essa desumanização não é apenas por conta das redes sociais, em registrar tudo para ser o primeiro a divulgar, mas sim uma coisa que sempre existiu e está acentuada por conta da grande oferta tecnológica que temos ao nosso redor. “Vemos essa situação acontecendo mais em grandes centros, pois as pessoas tratam o próximo como se fosse um objeto. Quando a cidade é menor as pessoas se ajudam mais. Claro que com a rede social isso também se agrava, o que chamamos da sociedade de espetáculo, onde muitos param para ver a vida apresentada pelo outro”, disse, completando que tanto o capitalismo, como socialismo vieram para contribuir ainda mais com a desumanização.

NOTA DA REDAÇÃO

PARA PENSAR

Kevin Carter foi um fotojornalista sul-africano que ganhou um Prêmio Pulitzer por uma fotografia de sua autoria que retratava a fome no Sudão em 1993. Ele fotografou uma criança faminta tentando chegar a um centro de alimentação quando um abutre-de-capuz apareceu nas proximidades. Essa foto rendeu prêmios e muitas críticas. Muitos questionavam o que o homem tinha feito para salvar a criança. Pouco mais de um ano após tirar a foto Kevin se matou. Abrindo uma aspa e saindo do fato que o jornalista não deve emitir sua opinião, a repórter que vos fala faz o seguinte questionamento: Onde a sociedade se perdeu que não consegue mais se importar com o outro? Uma foto significou uma movimentação de toda uma sociedade se questionando o que o homem fez para salvar a vida da criança e hoje em dia apenas o fato registrado é o que tem importado.

Especialista em Comunicação e Marketing Digital, Suély Zonta

Foto: Divulgação

“Quando as pessoas começam a interagir apenas com as que têm pensamentos parecidos, o senso crítico deixa de existir, pois todos pensam parecidos”

Advogado e professor, Raphael de Andrade Naves

Foto: Divulgação“O que poucos sabem é que não há imunidade para os excessos praticados por meio das redes sociais, de modo que são penalizados da mesma forma que aqueles cometidos no ambiente real”

Psicólogo Renan de Morais Souza

Foto: Divulgação

“Vemos essa situação acontecendo mais em grandes centros, pois as pessoas tratam o próximo como se fosse um objeto. Quando a cidade é menor as pessoas se ajudam mais. Claro que com a rede social isso também se agrava”

 

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