Tem gente que não está cansada de trabalhar. Está cansada de esperar. Esperar a coragem chegar, o momento ficar perfeito, a vida ficar mais fácil, alguém aprovar. E, enquanto isso, decisões importantes ficam para depois, mesmo quando poderiam mudar o futuro da pessoa e da família.
A verdade é que muita gente não adia por preguiça. Adia por medo. Medo de errar, de ser julgada, de decepcionar alguém, de “mexer demais” na rotina. E o cérebro humano funciona assim: ele prefere o conhecido, mesmo que o conhecido machuque. É por isso que tantas pessoas continuam em relações ruins, em trabalhos que adoecem ou em uma vida que não combina mais com elas.
Só que existe um detalhe: não decidir também é uma decisão. E quase sempre é a decisão que mantém tudo igual.
Às vezes, o que paralisa não é só o medo. É uma limitação imposta pelo outro: “você não vai conseguir”, “isso não é pra você”, “pense na família”. E, aos poucos, a pessoa vai diminuindo seus sonhos para caber no mundo dos outros. Mas nenhuma família se fortalece com alguém se anulando.
A boa notícia é que coragem não é ausência de medo. Coragem é seguir mesmo com medo. E ninguém precisa mudar a vida inteira de uma vez. Basta começar pequeno.
Orientações práticas para sair da espera:
• escreva qual decisão você está adiando e por quê;
• troque “e se der errado?” por “e se eu não fizer nada?”;
• dê um passo simples: uma conversa, um curso, um plano, um teste por 30 dias;
• procure apoio emocional: terapia, rede de confiança, alguém que te fortaleça.
A vida não pede perfeição. Ela pede direção. E muitas vezes o futuro começa quando a gente para de adiar o que já sabe.
Se tem uma decisão te chamando há meses ou anos, talvez não seja ansiedade. Talvez seja a sua vida pedindo passagem.
Marcele Campos
Psicóloga Especialista em Neuropsicologia (Avaliação e Reabilitação) e Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo, Atrasos de Desenvolvimento Intelectual e Linguagem. Trabalha há mais de 28 anos com crianças e adolescentes. Proprietária da Clínica Neurodesenvolver.