Setembro Amarelo e a infância

Por Carol Macedo
marcele atual

Todos os anos, o setembro Amarelo ilumina prédios, pinta monumentos e colore campanhas nas redes sociais com a cor da prevenção ao suicídio. A causa é nobre. Mas há uma parte da história que segue invisível: a saúde mental de crianças e adolescentes.

Fala-se do sofrimento adulto. Mas o choro dos mais jovens ainda é tratado como “manha”, “drama” ou “falta de resiliência”.

Esta falta de olhar cuidadoso custa caro e pode ser fatal.

Os dados não deixam dúvidas:

  • 1 em cada 4 jovens no mundo apresenta sintomas de ansiedade.
  • 13% em média já atendem aos critérios para transtornos ansiosos.
  • No Brasil, quase 30% das crianças e adolescentes tiveram sintomas significativos durante a pandemia e os índices continuam elevados.
  • Meninas, adolescentes mais velhos, vítimas de bullying, jovens em insegurança alimentar ou sem apoio familiar estão entre os mais vulneráveis.

Esses números não são estatísticas frias. São futuros em risco.

O problema? A reação predominante é a procrastinação. Pais, escolas e gestores acreditam que “o tempo resolve”. Mas o tempo não cura ansiedade ele a cristaliza. O sofrimento psicológico não ouvido pode evoluir para depressão, quadros crônicos e até pensamentos suicidas.

A boa notícia é que a ciência já mostrou o caminho:

– Intervenções precoces funcionam.

– Terapias comportamentais são eficazes.

– Abordagens online ampliam o acesso.

O envolvimento da família e da escola faz toda a diferença. O que falta, então? Vontade política, investimento real em políticas públicas, coragem para assumir que o sofrimento psíquico infantil também mata.

Setembro Amarelo não pode ser só uma vitrine de solidariedade momentânea. O verdadeiro compromisso é manter o olhar atento o ano inteiro. Porque ansiedade não segue calendário.

Valorizar a dor do jovem antes que ela se torne insuportável é investir em vidas inteiras, em futuros possíveis e em uma sociedade mais saudável.

 

Marcele Campos
Psicóloga Especialista em Neuropsicologia (Avaliação e Reabilitação) e Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo, Atrasos de Desenvolvimento Intelectual e Linguagem. Trabalha há mais de 28 anos com crianças e adolescentes. Proprietária da Clínica Neurodesenvolver.

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