Todos os anos, o setembro Amarelo ilumina prédios, pinta monumentos e colore campanhas nas redes sociais com a cor da prevenção ao suicídio. A causa é nobre. Mas há uma parte da história que segue invisível: a saúde mental de crianças e adolescentes.
Fala-se do sofrimento adulto. Mas o choro dos mais jovens ainda é tratado como “manha”, “drama” ou “falta de resiliência”.
Esta falta de olhar cuidadoso custa caro e pode ser fatal.
Os dados não deixam dúvidas:
- 1 em cada 4 jovens no mundo apresenta sintomas de ansiedade.
- 13% em média já atendem aos critérios para transtornos ansiosos.
- No Brasil, quase 30% das crianças e adolescentes tiveram sintomas significativos durante a pandemia e os índices continuam elevados.
- Meninas, adolescentes mais velhos, vítimas de bullying, jovens em insegurança alimentar ou sem apoio familiar estão entre os mais vulneráveis.
Esses números não são estatísticas frias. São futuros em risco.
O problema? A reação predominante é a procrastinação. Pais, escolas e gestores acreditam que “o tempo resolve”. Mas o tempo não cura ansiedade ele a cristaliza. O sofrimento psicológico não ouvido pode evoluir para depressão, quadros crônicos e até pensamentos suicidas.
A boa notícia é que a ciência já mostrou o caminho:
– Intervenções precoces funcionam.
– Terapias comportamentais são eficazes.
– Abordagens online ampliam o acesso.
O envolvimento da família e da escola faz toda a diferença. O que falta, então? Vontade política, investimento real em políticas públicas, coragem para assumir que o sofrimento psíquico infantil também mata.
Setembro Amarelo não pode ser só uma vitrine de solidariedade momentânea. O verdadeiro compromisso é manter o olhar atento o ano inteiro. Porque ansiedade não segue calendário.
Valorizar a dor do jovem antes que ela se torne insuportável é investir em vidas inteiras, em futuros possíveis e em uma sociedade mais saudável.
Marcele Campos
Psicóloga Especialista em Neuropsicologia (Avaliação e Reabilitação) e Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo, Atrasos de Desenvolvimento Intelectual e Linguagem. Trabalha há mais de 28 anos com crianças e adolescentes. Proprietária da Clínica Neurodesenvolver.