Cidades 13/06/2016 09:37:05 - Atualizado em 13/06/2016 09:37

Um de cada 55 bebês nasce com autismo no Brasil

Há cerca de 15 anos, nascia um em cada dez mil; faltam políticas públicas e tratamentos adequados, principalmente para os já adultos

Crescimento exponencial

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(Foto: Divulgação)

SUL FLUMINENSE/ESTADO

Durante a semana acontece o Dia Mundial do Orgulho Autista, lembrado no dia 18 de junho. Nesse dia, em todos os lugares do mundo, ou pelo menos na grande maioria deles, é comemorado o orgulho das pessoas serem autistas e dos pais de terem seus filhos autistas - um orgulho não do autismo, mas das pessoas como elas são e também da importância de darem tratamentos adequados para que elas possam se desenvolver dentro da síndrome. O conteúdo especial de hoje do jornal A VOZ DA CIDADE vai tratar sobre o tema e também sobre o autista adulto, o que para as pessoas que trabalham dentro do contexto, é deixado um pouco de lado.

“Aqui no Brasil, os pais também manifestam orgulho de seus filhos com autismo, de serem como são. Contudo, também pedem políticas públicas já que aqui o tratamento não é adequado. Muitos acabam piorando dentro do quatro por causa dessa falta de intervenção. O dia também é um ato político bem sério, por causa do déficit quanto ao caso”. Quem explica é Claudia Moraes, coordenadora no estado do Rio de Janeiro do Movimento Orgulho Autista do Brasil (MOAB).

Segundo ela, os MOABs de todos os lugares nesse dia festejam de alguma forma. “Aqui no estado do Rio a gente já teve um desabafo, que foi em Barra Mansa, no último dia 4 e no dia 17 teremos um seminário, também na cidade. Já no final do mês estarei em uma audiência pública em Brasília, na Câmara Federal, também em favor dos autistas”, contou.

Claudia Moraes coordena as ações do movimento dentro do estado e também as coordenadorias municipais de: Volta Redonda, Barra Mansa, Resende, Porto Real, Pinheiral, São Gonçalo, Mesquita e Niterói. “Trabalhamos voltados principalmente para as políticas públicas em favor dos autistas e seus familiares. Também realizamos o Desabafo Orgulho Autista Asperger - que é uma oportunidade para que pais e profissionais troquem suas experiências -, e o projeto Autismo nas Escolas”, explicou a coordenadora, acrescentando que os MOABs também fazem as audiência públicas tanto na área municipal, regional e federal.

A sede do MOAB fica em Brasília. Não existe uma sede no estado (mas está sendo providenciada), então seu trabalho acaba sendo realizado nas coordenadorias municipais. O movimento nasceu em 2005 e vai completar 11 anos.

DESAFIOS EM UM PAÍS POBRE DE RECURSOS

A coordenadora explica a dificuldade que os autistas encontram no país e alerta que o número vem crescendo assustadoramente. “No Brasil a gente não tem nada muito certo. Os serviço muitas das vezes são só na área particular, são caros e a maioria dos pais não têm acesso a isso. Volta Redonda ainda é uma cidade privilegiada, que tem algumas coisas voltada para essa área. Mas, precisamos avançar muito e rápido. Porque o numero de autista está crescendo vertiginosamente. Há 15 anos era um a cada dez mil nascidos; hoje, um a cada 55. Esse número vem assustadoramente aparecendo e a gente não ta preparado pra isso”, explanou. “No Brasil a inclusão caminha tristemente. Ela não acontece em todos os âmbitos e a gente ainda precisa trabalhar muito por isso”, ponderou.

Questionada sobre os desafios para os autistas, ela garante que são todos. “Desde o diagnostico precoce a escola inclusiva; a centros de atendimentos específicos; a residências assistidas; a alimentação, que precisa ser diferenciada e a suplementação. Precisamos trabalhar também em relação ao excesso medicamentoso. A parte médica é uma coisa que nos aflige muito também”, desabafou a coordenadora.

CONQUISTAS

Sobre as conquistas para os autistas, Claudia Moraes destaca a Lei Berenice Piana (Lei n°.12.764/12), que protege os direitos dos autista do Brasil. “Dentro dessa lei ficou especificado o autista como uma pessoa com deficiência. Isso foi importante pra nós, porque até então os nossos filhos não tinham nenhum direito assegurado. Também estão previstos diversos direcionamentos que devem dar ao autismo, mas infelizmente a gente não conseguiu ainda que essa lei fosse cumprida na integra e por isso nosso trabalho continua”, ajuizou.

AUTISTAS ADULTOS

Segundo a coordenadora Claudia, é importante destacar as necessidades dos autistas adultos. Ela explica que eles não tiveram a oportunidade de uma inclusão dentro da escola; consequentemente não tiveram oportunidade de uma inclusão social; não tiveram direito a diagnostico precoce (poucos conseguiram); e hoje em dia a maioria dos adultos autistas no Brasil estão sem tratamento, porque terapeutas mesmo que particulares não acreditam ou não querem trabalhar com esse público; eles vão se tornando difíceis, porque são pessoas que são apreensivas, não têm terapia, tratamento, trabalho, lazer. Acabam virando uma bomba relógio dentro de casa e dentro da família. “As famílias são muito estressadas. Passam por muitos problemas, os financeiros então são terríveis, porque o gasto é grande. E as pessoas vão envelhecendo, os filhos viram adultos, fortes e às vezes você não sabe o que fazer”, destacou Claudia, que é mãe do Gabriel, que é autista de grau severo e tem 28 anos.

Ela conta que as coordenadorias do MOAB estão em uma campanha nacional de mobilização para despertar os políticos brasileiros para necessidade de políticas públicas voltadas para os autistas adultos. “Não queremos que eles sejam aquelas pessoas dependentes dentro de casa, onerando cofres do estado, se entupindo de medicação, passando o dia enfrente a televisão. Se eles tivessem incentivos, locais apropriados para frequentar, poderiam ser seres produtivos para a sociedade. Poderiam contribuir com os seus impostos, ajudar suas famílias e não ficar nesse estado de penúria que a maioria se encontra”, avaliou a coordenadora do MOAB.

A coordenadora explica que para os autistas de grau severo, porque o autismo também tem graus (severo, intermediário e leve), é muito mais difícil. “No caso do meu filho, ele tem epilepsia, TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), distúrbio do sono. Isso tudo aliado ao autismo. Então é muito complicado, quando você não tem uma escola pra levar, uma clinica terapêutica. Quando o autista não desenvolve nenhuma atividade para o trabalho, é uma pessoa adulta que fica dentro de casa ociosa e que com o tempo às vezes acaba se tornando uma pessoa agressiva, porque não tem espaço na sociedade para ele, por isso a necessidade de se refletir muito sobre o tema”, finalizou.  

MOAB VR

A equipe do A VOZ DA CIDADE também conversou com Lie Ribeiro, coordenadora no MOAB Volta Redonda, cargo que ocupa há dois anos. Ela também tem um filho autista e que se chama Gabriel e explica que não existe um calculo de quantos autistas existem na região. “Já propomos um projeto de lei que faça uma pesquisa no estilo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) para sabermos quantos autistas temos”, contou.

Segundo ela, seu interesse no assunto surgiu em 1989, quando descobriu o autismo no seu filho, aos dois anos de idade. Desde então, ela vem lutando e se unindo a outros pais no Brasil para garantir os direitos dos autistas. “Estamos numa batalha pelas políticas públicas para os autistas adultos. O autismo foi classificado como autismo infantil, e acabou ficando com esse diagnostico, fazendo com que as pessoas se esqueçam que eles crescem, ficam adolescentes, adultos e idosos. Nossa luta agora é por residências protegidas e assistidas para os autistas adultos”, contou, acrescentando que hoje, no país, falta conhecimento, falta um prognostico e um caminho que os pais possam tomar. “Lutamos o tempo inteiro para que eles possam enxergar essas pessoas, para que entendam que eles fazem parte da sociedade apesar das suas dificuldades sociais. Nosso grande desafio é esse, pois precisamos ter a certeza que no dia não estivermos mais aqui eles estarão amparados”, concluiu a coordenadora de Volta Redonda. 

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