São João Marcos, do progresso ao esquecimento – A Voz da Cidade
Siga a Voz da Cidade
HomeEspecialSão João Marcos, do progresso ao esquecimento

São João Marcos, do progresso ao esquecimento

Cidade histórica foi destombada para que suas terras fossem inundadas para a ampliação da represa de Ribeirão das Lages Fotos: Acervo Família Costa/Fábio Guimas

São João Marcos, do progresso ao esquecimento

FRANCIELE ALEIXO

franciele@jornalavozdacidade.com

Cidade histórica foi destombada para que suas terras fossem inundadas para a ampliação da represa de Ribeirão das Lages

Uma cidade que em seu auge do Império, em 1870, alcançou 20 mil habitantes, cidade rica, formada por 72 fazendas, uma igreja matriz revertida com ouro, teatro, conjunto arquitetônico que misturava colonial e barroco. Tudo isso localizado estrategicamente próximo ao porto de Angra dos Reis, contribuindo para que a cidade fosse uma grande produtora e negociadora de café do período. Assim era São João Marcos, a primeira cidade do Brasil a ser tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e que foi destombada para que suas terras fossem inundadas para a ampliação da represa de Ribeirão das Lages, que teve sua construção entre 1906 e 1908. O conjunto arquitetônico urbano foi o segundo tombamento, em geral, realizado pelo Iphan.

Por cerca de 70 anos, toda essa história ficou submersa. O Instituto Light buscou formas de trazer a tona toda essa riqueza cultural, e em 2011, com a criação do Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos. “Essa é uma contribuição da Light para manter viva e dar a oportunidade de contar a história daquela região. Não é uma retratação, pois a decisão de submergir a cidade foi um decreto de Getúlio Vargas, desapropriando as terras para a ampliação da represa”, conta o Gerente do Instituto Light e Centro Cultural, Luís Felipe Younes do Amaral.

O gerente informa que entre 1939 e 1940, época em que a cidade, foi esvaziada, São João Marcos já não era tão importante. Com a abolição da escravatura, houve um grande declínio econômico e populacional, e nessa época, a cidade contabilizava cerva de quatro mil habitantes.

Younes relembra que historiadores pesquisaram a fundo sobre a história e apontaram que fica muito claro o pedido de Getúlio Vargas sobre a viabilidade de aumentar a capacidade de água da capital do estado. “Esse estudo apontava que aumentar a vazão da Represa de Ribeirão das Lajes seria o mais viável na época. Engenheiros delimitavam uma cota, e Getulio queria uma cota maior e comprometia o destino desse município”, relembra.

Luís Felipe relembra que por quase 70 anos a cidade caiu no esquecimento. Em 2007, a gestão da Light começou a pensar no que poderia fazer para resgatar a história. “Foram quatro anos de projetos, estudos e captação de recursos e de mão de obra, para em 2011 inaugurar o espaço, restaurando o centro histórico, e transformando o local num grande centro de arqueologia, cultura e de preservação ambiental”, explica.

Hoje é possível ver o traçado de algumas casas, ruínas da igreja matriz, cemitério, entre outros. Há dois circuitos de visitação: O primeiro, com três quilômetros de extensão é possível caminhar pela Estrada Imperial, observando muros de arrimo, pontes de pedra, canjicado, (pedrinhas sobrepostas) e o sistema de drenagem de água da época. Através do projeto educacional, os alunos fazem o trajeto acompanhados por guias e pedagogos.

Já no segundo circuito, com apenas um quilômetro, é possível caminhar pelas ruas do centro histórico de São João Marcos, e ver a base das casas, arruamento, calçada, baldrames de entrada, estruturas da casa do Capitão Mor, igreja principal, teatro.

Economia, cultura e natureza

O parque, localizado a 128 km da capital fluminense, conta com 930 mil metros quadrados. Historiadores, museólogos, arqueólogos, arquitetos, paisagistas, passaram quatro anos dedicados à missão. Além de trilhas e das ruínas históricas da ex-cidade – passeio que dura cerca de 40 minutos –, os turistas encontrarão um Centro de Memória que conta de forma lúdica o passado, além dos resultados das pesquisas históricas e arqueológicas. Há ainda um anfiteatro e cafeteira, tudo com acessibilidade.

O Parque é um grande atrativo turístico na região, com visitas guiadas e programas educativos nas escolas, que leva estudantes e familiares ao local. “O desenvolvimento do parque gerou emprego e economia. O quadro de funcionários do parque são, em sua maioria, de pessoas que moram no entorno do parque. Hoje temos chef de gastronomia, que prepara pratos típicos e temáticos da época, além disso, tudo que é preciso comprar para o Parque Arqueológico é comprado no comércio do entorno”, ressalta Luiz, acrescentando que o fomento cultural também está em alta, lá são realizadas festas tradicionais, com um calendário de festividades já pré-programado.

Quem gosta de observar pássaros, o Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos é o local ideal para isso. “O Parque, hoje, serve como ambiente para estudos de universitários, como o estudo de répteis ou estudos limnologia, que estuda a vida de dentro do lago”, informou.

Do progresso ao esquecimento

A história de São João Marcos se inicia em 1739 com a construção de uma capela dedicada ao santo pelo fazendeiro João Machado Pereira. Em volta do singelo templo cresceu um povoado privilegiado pelas condições naturais para o cultivo do café, fruto que nos 200 anos seguintes projetaria a cidade como uma das mais ricas do Brasil Colônia e Imperial. São João Marcos cresceu e se desenvolveu por meio de mãos negras na produção do ‘ouro verde’. O Ciclo do Café atingiu o auge da prosperidade em torno de 1850 quando São João Marcos – núcleo urbano e área rural – chegou a ter 18 mil habitantes, sendo oito mil escravizados, a maioria pertencente ao maior cafeicultor da região, Comendador Joaquim José de Souza Breves, conhecido como ‘Rei do Café’.

São João Marcos era uma cidade formada por uma dezena de ruas, três largos e algumas travessas. A área urbana era composta de casas de construção térrea e sobrados neoclássicos e o calçamento feito de pedra de cantaria. Tinha prefeitura, câmara municipal, cadeia, duas escolas públicas, agência de correios, hospital, duas igrejas (Matriz de São João Marcos e Nossa Senhora do Rosário), dois cemitérios, teatro (São João Marcos, mais tarde também conhecido como Tibiriçá), estação meteorológica, time de futebol (Marcossense F.C.), lojas de comércio e dois clubes (Marquense, frequentado pela elite; e o Prazer das Morenas, mais popular), com suas respectivas bandas de música.

Pereira Passos, Ataulfo de Paiva e Fagundes Varela são filhos ilustres da cidade de São João Marcos. O engenheiro e político Francisco Pereira Passos (1836-1913) foi prefeito da cidade do Rio de Janeiro entre 1902 e 1906 e promoveu uma grande reforma urbanística na cidade, inspirada em Paris. Já Ataulfo Nápoles de Paiva (1867-1955) foi advogado, magistrado e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), e Luiz Nicolau Fagundes Varela (1841-1875) se notabilizou como um dos maiores expoentes da poesia brasileira na geração romântica; patrono da cadeira nº 11 da ABL.

Em 1939, São João Marcos foi tombada pelo órgão de proteção do patrimônio histórico e artístico da época. No ano seguinte, entretanto, foi destombada por decreto do presidente Getúlio Vargas. A cidade foi então desocupada e demolida devido à previsão de alagamento do seu perímetro urbano. A inundação, decorrente do aumento da capacidade de armazenamento do reservatório de Ribeirão das Lajes, foi necessária para a construção da Usina de Fontes Nova, até hoje em funcionamento.

Engenheiros da Rio de Janeiro Tramway, Light and Power Company, a companhia de eletricidade do Estado, concluíram que a melhor opção seria criar uma represa e uma hidrelétrica na região. Mas São Marcos estava no meio do caminho. Para o projeto ir à frente, seria necessário inundar a maior parte da cidade (pelo menos 90 fazendas).

Compartilhe:Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on Twitter
Classifique essa Notícia
Sem Comentários

Comentar