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Candidatos a pais estão mais abertos à adoção de crianças mais velhas

Candidatos a pais estão mais abertos à adoção de crianças mais velhas

A adoção é um ato de amor, mas que ainda traz consigo muitas dúvidas e barreiras. Um desses desafios é a combinação entre o perfil preferido dos candidatos a pais com o das crianças disponíveis no cadastro de adoção. A pouca idade costuma ser a preferência, no entanto, nos últimos anos quem está na fila para adotar tem sido mais flexível e adotado crianças mais velhas e até com irmãos. Quem se encaixou neste perfil é a professora de Educação Física, Isabella Guimarães. Ela e a companheira Gabrielle adotaram há quase um ano, Danilo, de 13 anos. Segundo ela, o adolescente estava há sete anos em um abrigo em Barra Mansa à espera de adoção e era muito agitado.

A relação dos três começou através do Programa de Apadrinhamento, realizado pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ), e foi ganhando mais espaço ao longo do tempo. “A gente costuma ser muito alienado com relação à adoção; tem uma visão de que aquela criança é problemática, mas não é isso. Apadrinho várias crianças e adolescente, mas com o Danilo foi tudo muito rápido; uma coisa louca. Nós nos apaixonamos por ele. Foram três meses de apadrinhamento, nos quais ele passava um tempo conosco, levávamos ele para passear e logo estávamos no Fórum participando do processo da guarda do Danilo. Costumo dizer que foi um encontro de almas”, comentou Isabella.

‘GESTAÇÃO DE TRÊS MESES’

A professora disse que ela e a companheira nunca haviam pensado na possibilidade de adotar uma criança e resumiu o sentimento ao garantir a guarda do adolescente. “Temos oito anos de relacionamento, mas nunca havíamos pensado em adotar. Já tinha passado pela cabeça uma inseminação, mas adoção não; ainda mais de um adolescente. Nós somos duas mulheres e ele no auge da puberdade, então é complicado. Mas acho que são os planos de Deus e não tinha como ficar sem ele. É algo surreal, só quem é mãe sabe como é. É um sentimento em que você faz tudo pelo outro e não quer nada em troca. Quando vejo ele feliz, não tem preço. Costumo dizer que a minha gestação durou três meses”, emocionou-se.

Questionada se relação homoafetiva afetava na criação e no convívio com o menino, Isabella foi cautelosa. “Olha, ainda não passamos por isso. Ele mesmo chama nós duas de mãe, mas é algo que ele pode passar, mas graças a Deus todo mundo nos abraçou e a ele também”, disse a professora.

COMEMORAÇÃO

Isabella lembrou que Danilo tinha alguns traumas e que aos 13 anos não sabia ler e escrever. “Ele era espancado quando menor, não sabia ler, nem escrever, apesar de estar no 5º Ano. A primeira coisa que ele pediu para mim foi se eu ensinava ele a ler. Na escola chamavam ele de ‘menino do abrigo’. Viu muitas crianças saírem do abrigo e ele ficar. Então ele foi se sentindo rejeitado e já tinha um sentimento de culpa, porque antes na família biológica tudo era culpa dele e acabava apanhando. Nunca havia comemorado um aniversário, então quando ele participa de qualquer festa se emociona. No primeiro aniversário dele conosco, chorou demais”, contou Isabella; dizendo que o adolescente tem mais dois irmãos – um deles ainda mora com a mãe biológica e é acompanhado por uma psicóloga.

Com a guarda definitiva do adolescente e uma certidão de nascimento que traz ela e a companheira como ‘mães’ do garoto, Isabella aconselhou a quem está na fila da adoção. “Não aconselho mudar o perfil somente para facilitar a adoção, porque a pessoa pode ter problemas e principalmente a criança. O ideal é seguir o que o coração manda”, disse, que garantiu que os grupos de apoio à adoção na região também ajudam nesse processo.

 “Isso não é matemático; não existe uma lógica’

A dona de casa Dayse Duarte e o marido, Gilson Caldas, adotaram dois irmãos há cerca de seis meses – um garoto com 11 e uma menina com 9 anos de idade. Ainda com a guarda provisória, ela disse estar vivendo um momento único em sua vida. “Minha vida mudou da água para o vinho. Na verdade não fomos nós que adotamos, foram eles que nos adotaram. Sou casada há 11 anos, mas não conseguíamos engravidar. Sempre quis gerar, mas nunca foi um problema para mim adotar. Então participamos do projeto de apadrinhamento e aos poucos fomos tendo mais vínculo com eles. Meu marido queria um menino, mas surgiu essa chance de adotarmos os irmãos. Antes disso, passamos por avaliação com psicóloga e assistente social. Na época, falaram para nós que havia duas crianças para adoção e eram irmãos; e eu disse: ‘Tudo bem, isso não é matemático; não existe uma lógica’. Assisti a muitos vídeos no Youtube sobre adoação, conversei com pessoas do Grupo de Apoio à Adoção de Barra Mansa; falei com uma vizinha que adotou uma menina de 8 anos e hoje me sinto abençoada”, disse Dayse, contando que hoje é surpreendida com atos de carinho dos irmãos.

“Quando a minha filha vinha ficar comigo nos fins de semana eu falava para ela me chamar de tia, mas ela nunca quis. Sempre me chamava de mãe. O menino é muito carinhoso; acorda me beijando. Às vezes eles fazem desenho da família na escola e trazem para casa. Então, eu aconselho as pessoas a não terem medo do julgamento das outras pessoas; que abram seus corações porque todo mundo merece uma oportunidade e eles são crianças. Imagina se eu tivesse fechado meu coração? Não iria estar vivendo esse momento abençoado, que também é de desafio, porque educar uma criança não é fácil, mas é assim mesmo”, disse, mostrando-se satisfeita com a nova rotina.

Juíza e psicóloga falam sobre mudança de comportamento nos candidatos a pais adotivos

Dados do Cadastro Nacional de Adoção mostram que em 2017, 344 adoções foram realizadas no estado do Rio de Janeiro. No estado do Rio, há um total de 374 crianças/adolescentes esperando para serem adotadas, em sua maioria pardas ou negras. Mais da metade possuem irmãos (57,49% ou 215 crianças), e a partir dos 11 anos o número à espera de uma família substituta cresce exponenciamente – de 11 a 17 anos são 287 disponíveis. Em Barra Mansa, apenas um adolescente, de 14 anos, para qual não existem pretendentes interessados está disponível para adoção.

Segundo a juíza da 2ª Vara de Família, da Infância, da Juventude e do Idoso da Comarca de Barra Mansa, Lorena Paola Nunes Boccia, há alguns anos crianças com mais de 2 anos já eram consideradas de difícil colocação em famílias adotivas. Hoje, já se percebe uma mudança de comportamento nos candidatos a pais adotivos. “Hoje, temos pretendentes para crianças saudáveis de até 7 anos de idade cadastrados no Cadastro Nacional de Adoção, inclusive aqui na região. A partir de 8 ou 9 anos de idade, ou quando a criança tem problemas de saúde, ainda temos uma dificuldade quase que intransponível de encontrar pretendentes”, revelou a juíza.

A magistrada explicou que o número de adoções varia devido a situação de cada criança acolhida, já que a preferência legal é que elas retornem para as famílias de origem. Mas de acordo com Lorena um dos aspectos que dificultam é a “idealização de um perfil”. “A imensa maioria das crianças e adolescentes aptas a adoção no Brasil hoje estão fora do perfil idealizado: possuem mais de 8 anos de idade; possuem problemas de saúde ou integram um grupo de irmãos em que a criança mais velha conta 8 ou mais anos de idade. Em Barra Mansa, 34 pessoas/casais aguardam adoção, sendo que nenhuma aceita crianças maiores de 8 anos de idade ou com graves problemas de saúde”, informou.

A psicóloga Mariana Baptista conversou com o jornal A VOZ DA CIDADE e disse que acredita que essa mudança no perfil constatada se deve ao jeito das pessoas pensarem. “Hoje se pensa um pouco diferente. Antigamente essas crianças colocadas para adoção eram vistas como ‘crianças problemas’, ainda é um pouco assim, mas isso tem mudado. Assim como é com os filhos biológicos, você não pode escolher como vai ser seu filho adotivo. Acredito que a fila de espera por crianças com o mesmo perfil é tão extensa, e o desejo de algumas pessoas em serem pais é tão grande que eles tiveram que se adequar”, opinou.

Mariana disse que é importante esses candidatos a pais adotivos se prepararem emocionalmente, se adequando às expectativas, nem que seja necessário procurarem ajuda de um profissional. “A ansiedade é muito intensa com relação a isso e não é do dia para a noite que a adoção acontece, às vezes não é no primeiro ano, nem no segundo ano de espera. Buscar informações para que as frustrações, que provavelmente vão existir, não abalem tanto é fundamental. Participar de cursos e receber orientações de psicólogos e assistentes sociais é importante”, destacou, orientando que essas pessoas busquem conhecer o perfil e a personalidade das crianças aptas à adoção, principalmente as mais velhas que possuem uma personalidade já formada.

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