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A história e o legado da Dama do Samba

A história e o legado da Dama do Samba

No início do mês a prefeitura inaugurou um espaço de lazer que promete ser ponto central de atividades culturais na cidade, na Avenida Presidente Getúlio Vargas, a Beira Rio. O local foi batizado de Calçadão Dama do Samba Paula de Jesus Francisco. Paula, ou simplesmente Dona Paula como muitos conheceram, foi um ícone da história do samba e da cultura do carnaval em Barra Mansa e uma das fundadoras do Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos da Chacrinha e do grupo infantil Chacrinhas do Amanhã. Pioneira, a “Dama do Samba” faleceu em dezembro do ano passado mas sua memória e legado continuam vivos.

O jornal A VOZ DA CIDADE conversou com uma das filhas de Paula, Regina Dalva Francisco, que contou um pouco sobre a história de amor que a Dama do Samba estabeleceu com a música e o carnaval. Regina disse que tinha uma admiração muito grande pela mãe, principalmente pelo pioneirismo e determinação.

“Minha mãe era muito determinada e eu a via como exemplo de garra. A vida profissional dela foi uma grande batalha. Ela ficou por volta de 38 anos na Santa Casa. Começou como copeira, estudou e se tornou enfermeira, mas por problemas de saúde foi aposentada por invalidez. Porém ela não queria ficar parada, para não ficar ainda mais doente, foi aí então que veio a ideia da Chacrinha” disse Regina.

De forma pioneira, a Grêmio Recreativo Escola de Samba Acadêmicos da Chacrinha surgiu na década de 80, no bairro Roberto Silveira, promovendo a alegria e irreverência no carnaval de rua em Barra Mansa. No início, aquele grupo de pessoas era visto com preconceito, principalmente Paula, a única mulher. Perguntada se a mãe sofria com o machismo da sociedade, Regina respondeu de forma simples: “Era meio complicado, mas ela não dava muita importância para isso não. Fingia que não ouvia e tocava o barco dela. Ela tirava de letra”, garantiu.

Porém, com o tempo os sambas enredos, desfiles de carros alegóricos e alegria na avenida, a Chacrinha foi conquistando títulos e foliões.

“Em questão de escola de samba, era sempre muito difícil. A Chacrinha chegou a desfilar sozinha, depois é que vieram as outras escolas. Minha mãe fazia feijoada, angu à baiana, bingo, tudo para conseguir fomentar a cultura do carnaval na cidade. Me lembro dela tirar dinheiro do próprio bolso para poder comprar fantasia, pagar ferreiro para ter carro alegórico. E ela trabalhava muito para podem conseguir colocar a escola na avenida” afirmou Regina.

AMOR E HERANÇA MUSICAL

E como a própria filha revelou, todo o amor de Paula pela música veio por influência do pai, Seu Ricardo. “Minha mãe era muito musical, muito por influência do meu avô Ricardo. Ele tocava violino e ia do clássico ao forró como sanfoneiro. Ela estudou música e quando meu avô faleceu, herdou o violino que era dele. Em seguida, ela trocou o violino por um violão com um vizinho, começou a aprender a tocar e não parou mais”, disse, lembrando que a mãe também cantava e a descobriu como compositora, e hoje ela segue vivendo o samba e o carnaval desfilando como baiana da Estação Primeira de Mangueira, assim como outros filhos e membros da família.

Sobre os últimos anos de vida da mãe, que conviveu com problemas de saúde até sua morte (Ela sofreu um aneurisma e dois acidentes vasculares cerebrais – AVC), Regina disse que a Dama do Samba diminuiu o ritmo da folia, mas nunca a deixou de lado.

“Depois dos problemas de saúde ela passou a participar de leve do carnaval, porque pelos AVCs ela ficou com uma sequela motora, mas em nenhum momento ela perdeu a lucidez. Minha mãe costumava dizer que tudo o que ela queria, e que dependia dela, ela havia realizado. A única coisa que não conseguiu fazer foi um projeto junto com a Chacrinha do Amanhã” revelou, dizendo que Paula tinha o desejo de usar o grupo infantil promovendo educação por meio da música e atividades esportivas.

HOMENAGEM E LEGADO

O nome de Paula foi dado ao Calçadão do Samba, espaço que recebeu atividades carnavalescas e promete ser o ponto de atividades culturais no município. Regina falou sobre como recebeu a notícia de que a mãe daria nome ao local.

“Eu tenho muito a agradecer a todos que fizeram isso. Para mim foi uma emoção muito grande, perdi a fala quando vi a placa com o nome dela ali. Ela receberia esta homenagem com a maior alegria. Era o sonho dela. A semente que ela plantou está dando frutos. Vejo essa homenagem com muita emoção e acredito que tenha sido muito merecida pelo o que ela fez no mundo do samba. Infelizmente não teve possibilidade de colocar vários projetos em prática, mas esses anos que a Chacrinha esteve na avenida foram válidos” declarou.

O superintendente da Fundação Cultura Barra Mansa, Marcelo Bravo, destacou a importância que Paula teve para a identidade cultural do município. “Para Barra Mansa ela teve uma importância como poucos tiveram. A dona Paula foi uma das fundadoras da Acadêmicos da Chacrinha, que proporcionou o samba e a preservação dessa cultura do carnaval em nossa cidade. Nos últimos anos o samba/carnaval foi deixado de lado pelo Poder Público, mas ele não precisa desse apoio para existir. A história do samba resiste a tudo isso, vem da rebeldia, ousadia. E isso nunca morreu. Batizar esse espaço nada mais é que um reconhecimento, um chancela oficial da prefeitura na figura que foi a dona Paula. Uma líder e inspiração para as gerações mais novas. Nós já tínhamos o projeto desse espaço para acolher o samba da cidade e com a morte dela oportunizou para que a memória dela prosperasse” disse, explicando que nos anos 80 recebeu o título de a “Dama do Carnaval” e em 2015 ganhou o título de personalidade do samba.

A gerente de formação cultural da Fundação Cultura, Alessandra Sudré, que curiosamente é parente da Dama do Samba, destacou que o órgão segue o que sempre foi semeado por ela.

“A gente tem um trabalho voltado para a educação cultural, onde o cunho é fazer com que crianças e adolescentes entendam que existe a educação da arte, do coração. Temos vários cursos: iniciação cultural, pintura, desenho artístico, contação de história. Oferecemos as escolas e é um trabalho que vem dando muita repercussão. Temos jovens quebrando barreiras emocionais, se desabrochando para o mundo, para o seu talento. Ou seja, são sonhos que ela teve e nós da família estamos conseguindo realizar” finalizou.

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